Vinte anos depois Gabriel Thomaz e Autoramas mantém a fórmula do garage rock dançante

por em terça-feira, 7 agosto 2018 em

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No distante ano de 2003 o trio Autoramas passou por Natal pela primeira vez. De lá para cá foram várias vindas, apesar que já faz muito tempo que não pisam por aqui. Seguiram produzindo, tocando, viajando. Da formação inicial só ficou Gabriel Thomaz (voz e guitarra). Hoje a banda é um quarteto com Erika Martins (voz, teclado, guitarra e percussão), Jairo Fajer (baixo) e Fábio Lima (bateria). O mais novo disco, Libido, apesar da mesma fórmula – segundo Gabriel – de todos os outros discos apresentou uma pegada mais pesada, sem deixar de lado a pegada pop que também é outra característica da banda e de Gabriel (que no passado teve músicas lançadas pelos Raimundos, parceiros desde a época do Little Quail & The Mad Birds).

Batemos um papo com Gabriel e você pode ouvir o novo disco ao fim da entrevista.

Pra começar, o álbum novo. Senti na sonoridade uma aproximação com o começo da banda e dos dois primeiros discos. Uma pegada mais pesada, sem esquecer a veia pop. É isso mesmo?

Acho que nunca deixamos a fórmula inicial do Autoramas, que é o baixo com distorção, as guitarras com efeitos loucos e as batidas dançantes na bateria. Esse é um resultado que chegamos facilmente ao vivo, mas nem sempre foi fácil chegar em estúdio, por diferentes motivos… Com esse disco, acho que nos aproximamos muito dessa energia que rola nos shows, chegar à essa sujeira com bastante definição. Conseguir fazer isso chega a dar até um certo alívio, é um negócio difícil de captar. Nos últimos dois anos eu caí dentro da produção dos efeitos e me aprofundei mais nesse assunto, até lancei minha série de pedais, primeiro o Vibratoramas e agora está saindo o Fuzzoramas, que é o som clássico do som do baixo do Autoramas (ontem postei um vídeo sobre isso na fanpage do Autoramas, dá uma sacada). A “veia pop” é o meu jeitinho de compôr, adoro melodias grudentas. Faço isso desde que comecei a tocar e temo dizer que não sei fazer de outro jeito…

Por diferentes motivos cabe as formações que mudam? Fred e Melvin já deram lugar a Jairo Fajer e Fábio Lima.

Não… São mais coisas de estúdio mesmo, é um troço complicado, apesar de parecer fácil. Todos que tocaram comigo sempre souberam que o Autoramas tinha essa fórmula e tal…

Como foi o processo de composição desse novo álbum? Vocês viajam muito, fazem tour européias constantes.. Param pra criar o disco ou ele vai sendo feito diariamente?

Diariamente. Música por música

Alguma música preferida nesse novo álbum?

Certamente “Sofas, armchairs and chairs”. Tocar essa música é um prazer maravilhoso.

Gabriel, como você vê em retrospecto esses 20 anos de banda? Está a mesma coisa, está melhor, pior? Falo em termos de produção, tocar/viajar, divulgar… Muita coisa mudou desde que o primeiro disco foi lançado. O MADA, onde vi vocês pela primeira vez, era na Rua Chile, hoje o festival é numa arena de Copa do Mundo, por exemplo.

Essa é longa. Posso dizer sem medo de errar que hoje está tudo muito melhor. Acho que isso é até reflexo de estarmos lançando um de nossos melhores discos, estamos conseguindo ter mais controle das situações e assim fazer as coisas do jeito que a gente imagina e do jeito que a gente gosta. Engraçado você falar do Mada em 2003. Lembro que quando fomos a banda estava por um fio, ainda era época que pra estar no cenário os artistas tinham que ter contrato com gravadoras (entre outras leis da época) e nós não tínhamos perspectiva nenhuma em relação a isso. A banda, o projeto Autoramas estava por um fio e a Simone debandou logo depois disso. O próprio título do disco que lançamos naquela época (que era uma colcha de retalhos de gravações que fizemos soltas nuns 6 estúdios diferentes que alguns amigos fizeram uns favores pra nós e deixaram a gente gravar) era Nada Pode Parar os Autoramas, a ideia de resistência total. As coisas começaram a mudar em 2005 quando fomos a banda mais premiada do VMB, muita gente descobriu o Autoramas e começamos a fazer shows pra caramba. Nessa época também começou a era da música independente brasileira, e não tenho medo em dizer que talvez o Autoramas tenha sido a banda de rock que mais contribuiu pra esse cenário se consolidar. As pessoas tinham vergonha de dizer que eram independentes (antes isso era sinônimo de amador) e nós entramos nessa de peito aberto. E estamos aí até hoje, fazendo tudo com muito mais tranquilidade em todos os aspectos. Pudemos até desenvolver uma carreira internacional, o que muita banda com contrato com gravadora foi proibida de fazer naquela época. Já viajamos 47 vezes para o exterior, com shows em 23 diferentes países. E vem muito mais coisa por aí!

Essas facilidades, inclusive das redes sociais, ajudaram muito em termos de divulgação. Mas muita gente defende que a forma de ouvir música mudou. Que ninguém para pra ouvir um disco todo, virou meio que uma trilha sonora do dia a dia. Você percebe isso com a Autoramas e os discos? E outra: como essas redes em termos financeiro tem funcionado para a banda?

Sim. Mudou muito. Meio que voltou à era dos singles e compactos, antes do LP se popularizar. Em relação às redes sociais, elas viraram uma parte do trabalho como um todo. Hoje, além de pensar em letras, melodias e arranjos, eu também tenho que usar a criatividade pra posts, playlists e outras ações…

Gabriel, faz um tempo que a banda não vem por aqui, alguma previsão de tour com esse disco novo pelo Nordeste?

Adoraríamos. Estamos tentando fazer isso

Tem ouvido coisa nova interessante? Se sim indica uns nomes.

Muita coisa boa. Há 6 anos faço o Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira, onde listo e premio o que há de melhor no Brasil. Em 2018 faremos a terceira cerimônia de premiação, q sempre fez parte da SIM São Paulo. Fui a primeira pessoa a falar de bandas como The Baggios, Black Pantera, Blastfemme, Asteróides Trio… Além disso faço um programa na Mutante Rádio, o Magnéticos. Aí toco Rock and Roll do mundo inteiro: do Brasil, Turquia, Costa Rica, Indonésia e por aí vai. Muita garageira, muita coisa nova. O programa tem o nome inspirado no meu livro Magnéticos 90, que conta a História dos anos 90 na perspectiva da fita K7. O livro foi elogiadíssimo, foi capa e página inteira no Globo, Estadão e Correio Braziliense. Ou seja: ouço muita música. Basta procurar as páginas dessas paradas que tem toneladas de dicas.