De black metal a trap, a Araque Sanfona manda a ideia em qualquer formato

por em terça-feira, 16 maio 2017 em

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O Araque Sanfona começou em 2008 por Mário Fong e ganhou corpo em 2012 quando Mário encontrou o produtor Júlio Victor, da banda Sasha Grey as Wife. O encontro e a colaboração resultaram no álbum que sai ainda em 2017. A parte instrumental e a produção são de Júlio e voz de Mário. O conceito, que é amplo, passeia por uso de distorção pesada e bateria nervosa, passando por instrumentais de trap, country, black metal, percussão taiko e muitas outras variações. As letras em primeira pessoa expressam quem Mário é e mudanças em sua vida que ocorreram e ocorrem desde o surgimento do projeto.

O release fala em math rock, mas a história é que o disco vai sair com várias influências. Isso foi sendo definido de acordo com as letras ou o contrário?

Sim, o release pequeno se refere apenas a “Quantas últimas eu aguento”. Todas as músicas foram feitas primeiro o instrumental e depois depois as letras. Algumas são textos antigos de dez anos atrás e outras foram feitas em poucos meses.

As letras foram adequadas as músicas.

A gente fez esse álbum muito rápido, inclusive nada foi adequado. Foi estranho como tudo se encaixou. As vezes o Júlio me mandava um instrumental e eu pensava na hora em algum texto abandonado no canto da gaveta, testava e via que encaixava certinho, chegava a me assustar. A minha parte foi gravada em apenas cinco horas. Eu tive uma bandinha que fazia covers de metalcore na adolescência, depois que acabou eu comecei a fazer composições sozinho.

Nesse período que a Araque começou?

Sim, de 2008 pra cá.

E esse interesse por spoken word surgiu como? Quando se toca no tema lembro logo da Kathleen Hanna, do Bikini Kill.

É só porque eu sempre gostei de escrever, mas nunca soube rimar. Tem uma música com o nome bem sugestivo “Eu não caibo numa rima”, o próximo single.

As temáticas são variadas: Versam sobre o quê?

Eu abro o álbum falando sobre o lindo patriotismo brasileiro de classe média. É uma música de duas partes. A primeira lida com o fascismo de internet, a outra é mais “local” e leva o que eu sinto sobre um bairro nobre aqui da minha cidade. Sou de Volta Redonda, RJ. Tem uma que fala sobre dependência química, tem uma muito metalinguística onde eu explico o processo de criação do álbum. Existe uma história feliz de amor e muitas outras frustradas e tem uma faixa dessas de amor que muda de ideia, de humor. Fecho o álbum passeando pelos temas de todas as músicas anteriores e culminando numa passagem sem instrumental, só voz, onde eu explico que esse álbum não foi escrito, foi psicografado.

E quem foi que mandou as ideias a serem psicografadas?

Te falar que eu não procurei saber, cara, morro de medo de me aprofundar nesses estudos porque sei que é um comprometimento sem volta. E eu tenho um pouquinho de medo de compromissos. Claro que são minhas experiências ali, minha vida, mas ao mesmo tempo, esse som tão pessoal e egoísta atinge as pessoas duma forma que chega a ser estranho. Engraçado alguém se identificar com um relato tão particular, tão singular. Todas as músicas, sem exceção, eu sentei e escrevi duma vez só. duma vez só mesmo, em poucos minutos. o máximo que eu fiz foi um ajuste aqui ou ali, mas já veio meio que tudo pronto, saca? Das antigas até as novas.

E tu nunca procurou trabalhar isso não? Pra controlar?

Mas eu sou medrosão, cara, eu nem vejo filme de terror. E passei um período muito delicado no começo da minha vida adulta do qual consegui me livrar há pouquíssimo tempo, só em 2015. Ainda estou aprendendo o que é, de fato, poder andar de queixo erguido, sem medo ou vergonha. Tem uma faixa sobre isso também, aliás.

O disco sai quando?

Esse ano ainda. A produção ficou um ano parada mas agora voltou com força total.

Diz a última coisa: esse nome Araque Sanfona. De onde surgiu isso?

É o título duma música duma banda que eu gosto muito e não existe mais, o Are you god? do álbum Miranda. Também é um ditado popular. Mentira é de araque, mentira piracicabana é de araque sanfona. Pela pesquisa que fiz, o pessoal de lá conta muita mentira cabeluda. (risos) Depois que descobri esse ditado, gostei mais ainda do nome. Porque se tem algo que meu som passa com bastante clareza, é a verdade. O que eu sinto ali, cru. Sem melodia, sem enfeite.