Lê Almeida desce a ladeira da memória em Amenidades

por em sábado, 11 agosto 2018 em

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Amenidades é o primeiro disco de Lê Almeida com o próprio nome desde Todas As Brisas (2016) – só dois anos de distância, mas quem acompanha a produtiva carreira do carioca, que hoje toca e grava com o trio Oruã,  sabe que isso é bastante tempo. Não por acaso, o novo disquinho é uma espécie de compilado/memorex da própria trajetória, com sobras, rascunhos e versões alternativas de canções escritas para discos ou projetos anteriores que, por algum motivo, ficaram de fora do produto final.

São 25 faixas escritas e gravadas entre 2008 e 2018, que traçam um itinerário que visita o processo de composição de discos passados (REVI, Mono Maçã, Pré-Ambulatório, Paraleloplasmos) com direito a rápidas paradas em outras como Babe Florida e Cosmos Amantes.

Amenidades é o lançamento nº 97 do selo Transfusão Noise Records, que deve bater a meta dos 100 discos lançados este ano, antes de completar 15 anos de atividade, em 2019.

Na sequência, ouça o disco e leia o texto que Lê Almeida escreveu para contextualizar a coleção. (AP)

 

AMENIDADES

A Baixada Fluminense fica a cerca de 35 km do Centro do Rio, mas que num dia de semana normal se demora duas horas entre baixada e centro. Nasci em Vilar dos Teles que possui mais de 90 mil habitantes, cidade também conhecida nos anos 80 como capital do jeans por seu forte centro comercial na época. Nunca estudei música, nunca tive referências artísticas clássicas, meu pai foi quem me fez conhecer bandas de classic rock que marcaram minha adolescência, me mostrou a magia. Quando entrei no supletivo à noite comecei a andar de skate, mas tinha que terminar a sétima série. Nesse ano o Sonic Youth tocou pela primeira vez no Brasil e eu só sonhei em ir, acordei no meu quarto ouvindo o Dirty em cassete.

Comecei a andar com um pessoal de um bairro vizinho, a tocar bateria e experimentar os perigos da noite da baixada com os 16/17 anos. Gravar em casa passou a ser meu refúgio, meu mundo. Quando ouvi The Microphones e Guided by Voices pela primeira vez pude entender que talvez eu conseguisse fazer algo em casa e até chamar de disco. Eu, Léo e Evandro tínhamos uma banda, se chamava Siameses, logo criei um selo, chamei de Transfusão Noise Records por causa de um filme jovem que meus amigos tanto curtiam e eu passei a adorar, Trainspotting.

Por causa da música eu fiz muitos amigos quando era adolescente que são meus amigos até hoje, a Transfusão passou a ser uma espécie de família, com crises, momentos lindos e muitas vitórias. Depois de mais de 10 anos gravando em casa (no quarto, no quintal, na sala) eu juntei alguns amigos em 2013 e montamos um espaço nosso bem no centro do Rio, chamei de Escritório e passamos a organizar shows além das nossas gravações. Esse lugar passou a ser a nossa base, mesmo com meus pais sempre dando apoio nas nossas investidas musicais, a gente precisava ter o nosso lugar e dar um sossego para eles.

Comecei a andar no Centro do Rio por volta de 2004, ano que iniciei a Transfusão. Meu pai tinha uma oficina de consertos de malas, bolsas, mochilas e afins. Eu trabalhava ajudando ele já que não dava certo em nenhum trabalho que arrumava (o mais longo foi de cozinheiro num restaurante de comida mineira aos 17). No Centro enquanto meu pai não precisava de mim eu vivia fuçando sebos atrás de vinis baratos e revistas de música, em algum momento eu comecei a fazer colagens no balcão dele enquanto ele fazia alguma entrega e eu tomava conta da oficina. Anos depois o Escritório passou a existir em uma rua logo ao lado da rua onde fica a oficina do meu pai.

Amenidades reúne 25 faixas gravadas entre o meu quarto e o Escritório, essas faixas acabaram não saindo em discos ou sendo apenas protótipos do que eu queria fazer, alguns rascunhos talvez. Esse disco sai no ano em que eu perdi meu pai e passei a me encontrar com as gravações como fazia enquanto era novo e gastava sábados inteiros dentro de casa. (Lê Almeida)

Foto: João Luiz