Em disco solo Valério explora a dualidade da fluidez e dureza dos dias

por em quinta-feira, 12 abril 2018 em

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O disco Água Pedra é de 2017, mas só agora chegou ao meus ouvidos. A guitarra e a ambientação sonora geral me chamou a atenção e lembrou a sonoridade do Norte. Guitarrada e influências indígenas, aparentemente. E a guitarra também me lembrou algo que ficou no inconsciente e conversando com o Valério o mistério foi desfeito: ele faz parte da HAB, que inclusive já passou por aqui.

Guilherme Valério é músico, ilustrador e compositor. Tocou com M.Takara 3 no disco Sobre Todas e Qualquer Coisa e participou da turnê com ele tocando em diversas cidades dos EUA. Como ilustrador fez diversas capas, como a de Rain Music de Nathan Bell, HAB, da banda homônima, Response Pirituba, também homônima, e M.Takara 3+1. Fez ilustrações de pôsteres de turnês de Lee Ranaldo (Sonic Youth), Joe Lally (Fugazi) e Asa Osborne (Lungfish) em parceria com a produtora Desmonta. Participou da produção e criação da trilha sonora original para o vídeo “Cityzen” da marca de skate “Vibe”. Integra a HAB e seu projeto solo Valério. O músico também se uniu a Steve Shelley (baterista do Sonic Youth) criando a banda Gata Pirâmide. Como instrumentista gravou com o duo norte americano On Fillmore, de Darin Gray e Glenn Kotche (Wilco) o disco Happiness of Living. Participou da gravação do disco Cortes Curtos, de Kiko Dinucci, tocando kalimba.

Leia entrevista abaixo e ouça o disco.

Guilherme, ouvindo o disco ele tem muita influência de música brasileira em geral. Mas senti alguma coisa indígena e guitarrada do Norte. É isso mesmo?

É isso mesmo, Hugo. Caramba, indígena nunca tinham dito! E realmente tem. Minha avó por parte de mãe era índia. Acho que essa ancestralidade do povo originário do Brasil está no meu trabalho sim. Guitarrada tem, sempre gostei do Mestre Vieira e música brasileira, principalmente dos anos 70.

Você tem muita coisa boa no currículo. E pelo que vi distintas entre si. Como é esse diálogo musical entre esses projetos, se é que existe?

Acho que o diálogo é saber que cada um é diferente do outro, sendo propostas e estéticas sonoras distintas. O que liga uma as outras talvez seja a instrumentação parecida. Mesmo assim há similaridades, pelo estilo de tocar, e resolver a música.

Você falou que sua avó materna é índia. Houve algum direcionamento na produção desse disco em relação a isso ou foi algo que saiu naturalmente?

Saiu naturalmente, fui “captando” essas mensagens em momentos de conexão comigo mesmo, sem me dar muito conta ou nacionalizar a respeito.

E foi um processo que demorou. Não saiu tudo de uma vez.

Tipo, “Antes” trouxe logo uma sensação e sentido ancestral, algo que vinha de bem longe de estar aqui nesse plano e nesta forma. E sim, as músicas vieram aos poucos. mas o que levou mais tempo foi a depuração das idéias, gravações e mixagem.

O próprio nome do disco dá uma conotação de sonoridade fluida do disco. Das músicas.

Sim, total. Rola muita água, “emoções”, e pedra que é a parte sólida, “corpo”. E também vem do ditado popular “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Resiliência, não desistir das coisas.

Ouvir teu disco e saber que você é da HAB me fez pensar em tanta gente que tem por aí e não chega aqui (NE) ou não circula por outros cantos. O formato dos festivais atrapalha essa vinda já que é um país imenso e custa muito?

Acho que rola essa frustração de não conseguir viabilizar essas viagens para festivais. Você pega a lista de festivais e não muda muito o line up. Entendo que são essas bandas que acabam levando maior público e gerando renda para pagar os gastos de funcionamento do festival incluindo funcionários, infra-estrutura e equipamentos. Então o que eu sonho e propago é que os festivais tenham curadores, aquelas pessoas que vão atrás dos artistas de maneira mais aprofundada até chegar em nós. Daí poderemos chegar até eles e ao público em geral. A falta de visibilidade desvaloriza o artista que atinge menor público e isso faz com que apenas lugares com menos estrutura contrate essas bandas menores. Gerando um baixo astral, um abismo que precisamos ficar atentos a não se submeter a qualquer coisa.

Pois é, eis a questão. Deixamos muita coisa passar porque ainda rola o velho e bom discurso do “damos visibilidade a banda” por parte dos festivais no lugar do cachê. Dessa forma você visibiliza sua música por aí como? Produz os próprios shows?

Depende muito, mas tenho me negado a fazer shows no qual preciso pagar pra tocar praticamente. Acho que vem dessa postura de se valorizar. Porque se a maioria dos músicos entra em qualquer esquema fica difícil mudar essa tradição do “damos visibilidade a banda”. Nessas não da pra rolar. Precisa ser algo mais justo. Produzimos (Desmonta) os shows no qual podemos ter uma qualidade mínima de execução. (O show de lançamento do disco aconteceu no dia 21/03 no SESC Pinheiros)

Tem gente (inclusive dos festivais) que reclama que tem artista que só toca no circuito SESC. Mas é errado se existe a disponibilidade e se faz da maneira que fica bom pro artista? Não, certo?

Claro que não. Tocamos no SESC porque tem estrutura e queremos também tocar em festivais comprometidos em expandir o cenário musical contemporâneo.

Cara, voltando pra casa e ouvindo o disco mais uma vez senti semelhanças com o Serra dos Órgãos do Domenico Lancellotti. Ouviu esse disco?

Pô, ele é o que toca com a Gal Costa, né? Nunca ouvi. Vou sacar, mano.

Foto: Haroldo Saboia