Afro-sambas cinquentão: musicalidade e sincretismo cultural

por em terça-feira, 1 março 2016 em

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Inegavelmente um disco à frente de sua época e um dos mais importantes da música popular brasileira, Os Afro-sambas virou um cinquentão em 2016. O álbum foi gravado nos dias 3, 4, 5 e 6 de janeiro de 1966 pelo selo Forma, que produzia sons de extrema sofisticação para a época.

Minha relação com essa pérola da música brasileira foi de amor à primeira vista. Estava a tomar uns tragos com alguns amigos em uma casa de praia, quando o disco foi colocado para tocar. Imediatamente os acordes de violão extremamente bem executados por Baden Powell, somado à voz, propositalmente ruidosa, de Vinicius de Moraes, misturado à sonoridade de ritmos africanos e backing vocals quase etéreos já me chamou à atenção e curiosidade. A mistura de ritmos definitivamente é algo que me atrai.

O disco possui toda a sua temática baseada em elementos do candomblé, objeto de estudo e fixação, tanto de Vinicius de Moraes, quanto de Baden Powell à época. Os nomes das canções são os seguintes: “Canto de Ossanha”, “Canto de Xangô”, “Bocoché”, “Canto de Iemanjá”, “Tempo de amor”, “Canto do Caboclo Pedra-Preta”, “Tristeza e solidão” e “Lamento de Exu”.

Para quem gosta de experimentalismo e sincretismo cultural, o disco é um prato cheio. Os Afro-sambas foi fruto de quatro anos de estudo dos dois artistas. Em 1962, Vinicius de Moraes foi apresentado ao LP Sambas de Roda e Candomblés da Bahia, que o encantou profundamente, o poeta mostrou o álbum a Baden, que também se apaixonou pelo tema. Ambos começaram a frequentar rodas de capoeira e terreiros e depois de muitos estudos deram vida às 8 letras que entraram no trabalho final.

Este é tido também como o primeiro disco de música popular brasileira a misturar instrumentos típicos do candomblé como atabaques, bongô, agogô e afoxé com outros da música tradicional como flauta, violão, sax, bateria e contrabaixo, o que demonstra também todo o trabalho harmônico que foi experimentado e desenvolvido para a obra, que teve toda uma concepção estética envolvida.

A entrada dos vocais femininos surgiu do estudo que Baden realizava sobre canto gregoriano, que o músico achou semelhante ao que ouvira nos terreiros e rodas. O coral foi regido pelo maestro Guerra Peixe e executado pelo Grupo vocal Quarteto em Cy, além de alguns “músicos amadores” amigos dos artistas, que eram à época: Nelita (esposa de Vinicius) e Teresa Drummond (namorada de Baden), Eliana Sabino (filha do escritor Fernando Sabino), Otto Gonçalves Filho (médico), César Proença (psiquiatra) e Betty Faria, que iniciava sua carreira como atriz. Inclusive é Betty Faria que divide os vocais com Vinícius em “Canto de Ossanha”.

Todo o clima rústico encontrado no disco também foi proposital. O maestro Guerra Peixe ensaiou o coro de modo a gerar a impressão de que os cânticos haviam sido gravados em um terreiro, já Vinicius de Moraes sempre mantém tons mais graves entoando as canções como se fosse um “Preto Velho”. A intensão, apesar dos arranjos elaborados, foi dar ao disco um ar simples (o que no futuro veio a ser motivo de críticas do próprio Baden).

Nos anos 90 Baden Powell chegou a regravar Os Afro-sambas com outros músicos e 11 faixas, onde tentou uma melhor qualidade sonora. Uma última curiosidade é que já pelo final dos anos 90 Baden Powell deixou de executar as canções do d’Os Afro-sambas, pois havia se tornado evangélico e, para ele, alguns dos cânticos passaram a fazer referência ao demônio. Vai entender…