Seja em sua prolífica carreira solo (três albuns em pouco mais de um ano e meio), seja no curto período em que ocupou a vaga de guitarrista no sensacional The War On Drugs, o boa praça Kurt Vile agrega algumas marcas pessoais e intransferíveis que ajudam – e muito – a entender sua maneira torta e, por vezes, errática de escrever música. Não se trata de apontar referências: é aquele lance de notar certos cacoetes, inflexões vocais ou predileções que, juntos, convém chamar de “estilo”. E isso Vile tem de sobra: uma orelhada sem compromisso em Constant Hitmaker ou no recente Childish Prodigy (de 2009, já sob a batuta da Matador Records) é suficiente para definir alguns pontos de partida na obra do cara.
O espectro de Tom Petty e do ‘boss’ Springsteen salta em primeiro plano mais de uma vez, mas o que mais chama atenção é a maneira como Vile não se deixa inibir pelas limitações técnicas para executar uma ideia. E, eis o grande barato da coisa, as ideias do sujeito sempre são meio distorcidas. Mesmo quando usa de estilos reconhecíveis, como o folk, o rock estradeiro há sempre um “algo mais” que supõe uma extensão da canção que está sendo ouvida. Estranho como possa parecer, as canções de Vile soam como se o compositor tivesse imaginado o arranjo de um jeito, mas tivesse usado o que tinha a mão para executar e acabasse criando algo diferente.
Esse característica alienígena, que fique claro, não é uma coisa ruim. Pelo contrário: é nesse modo meio intuitivo de compor que reside boa parte do talento de Kurt Vile. Mas em Square Shells, EP mais recente do músico, os arranjos estão mais centrados e crus. Predominantemente folk, das sete faixas do disquinho apenas a longa e ruidosa “Invisbility: Nonexistent” e a bizarra e dispensável “The Finder”, remetem às gravações anteriores. De resto, a impressão é que Vile anda forçosamente caminhando para outras direções. Voltando à comparação com Springsteen, é como se em poucos movimentos fossemos de Asbury Park e The E Street Shuffle direto para Nebraska. E, de fato, a grande imprensão é que Vile gravou as faixas do mesmo modo que o Boss fez em seu clássico álbum de 1982, em um quarto de hotel, com um gravador de 4 canais e um maço de cigarros à guisa de equipamento.
A delicadeza descarnada da abertura em “Ocean City” chega a arrepiar, com os vocais fantasmagóricos de Vile garantindo, feito um mantra emitido de alguma dimensão paralela: “You got a best friend, don’t know how/ You got a best friend now”. “I Wanted Everything” é uma perfeita canção estradeira com letra auto-depreciativa: “I wanted everything/But I think that I only got most of it”. Um pouco de luz surge na belíssima “I Know I Got Religion”, ainda que sem deixar de lado o lusco fusco (“I’m strumming my way everyday/When I feel blue I write a strummer for you”). A saidera, com “Hey, Now I’m Movin” parece ensaiar um final feliz – e, de fato, é uma das melhores do disco. E quando termina, tudo continua meio incerto, exceto que você tem a certeza de que precisa ouvir o disco outra vez. Square Shells pode até ser um disco de entresafra ou o prelúdio de uma nova fase na carreira de Vile. Mas tendo em vista o currículo do figura até aqui, uma mudança de rumo nesses moldes está longe de ser algo preocupante.
Seja em sua prolífica carreira solo (três albuns em pouco
mais de um ano e meio), seja como guitarrista do sensacional
The War On Drugs, o boa praça Kurt Vile agrega algumas
marcas pessoais e intransferíveis que ajudam – e muito – a
entender sua maneira torta e, por vezes, errática de
escrever música. Não se trata de apontar referências: é
aquele lance de notar certos cacoetes, inflexões vocais ou
predileções que, juntos, convém chamar de “estilo”. E isso
Vile tem de sobra: uma orelhada sem compromisso em Constant
Hitmaker ) ou no recente Childish Prodigy (de 2009, já sob a
batuta da Matador Records) é suficiente para definir alguns
pontos de partida na obra do cara.
O espectro de Tom Petty e do ‘boss’ Springsteen salta em
primeiro plano mais de uma vez, mas o que mais chama atenção
é a maneira como Vile não se deixa inibir pelas limitações
técnicas para executar uma ideia. E, eis o grande barato da
coisa, as ideias do sujeito sempre são meio distorcidas.
Mesmo quando usa de estilos reconhecíveis, como o folk, o
rock estradeiro há sempre um “algo mais” que supõe uma
extensão da canção que está sendo ouvida – e pra isso
poderia se faler, sem prejuízo algum ao bom gosto de
baterias programadas ou banda “de rock” no sentido
tradicional da coisa. Estranho como possa parecer, as
canções de Vile soam como se o compositor tivesse imaginado
o arranjo de um jeito, mas tivesse usado o que tinha a mão
para executar e acabasse criando algo diferente.
Esse característica alienígena, que fique claro, não é uma
coisa ruim. Pelo contrário: é nesse modo meio intuitivo de
compor que reside boa parte do talento de Kurt Vile. Mas em
Square Shells, EP mais recente do músico (lançado virtual e
gratuitamente pela Matador um dia desses), os arranjos estão
mais centrados e crus. Predominantemente folk, das sete
faixas do disquinho apenas a longa “Invisbility:
Nonexistent” e a bizarra e dispensável “The Finder”,
perigosamente atolada de sintetizadores, remetem às
gravações anteriores. De resto, a impressão é que Vile anda
forçosamente caminhando para outras direções. Voltando à
comparação com Springsteen, é como se em poucos movimentos
fossemos de Asbury Park e The E Street Shuffle direto para
Nebraska. E, de fato, a grande imprensão é que Vile gravou
as faixas do mesmo modo que o boss fez em seu clássico álbum
de 1982, em um quarto de hotel, com um gravador de 4 canais
e um maço de cigarros à guisa de equipamento.
A delicadeza descarnada de “Ocean City”, faixa de abertura
chega a arrepiar, com os vocais fantasmagóricos de Vile
garantindo, feito um mantra emitido de alguma dimensão
paralela: “You got a best friend, don’t know how/ You got a
best friend now”. “I Wanted Everything” é uma perfeita
canção estradeira com letra auto-depreciativa: “I wanted
everything/But I think that I only got most of it”. Um pouco
de luz surge na belíssima “I Know I Got Religion”, ainda que
sem deixar de lado o lusco fusco (“I’m strumming my way
everyday/When I feel blue I write a strummer for you”). A
saidera, com “Hey, Now I’m Movin” parece ensaiar um final
feliz – e, de fato, é uma das melhores do disco. E quando
termina, tudo continua meio incerto, exceto que você tem a
certeza de que precisa ouvir o disco outra vez.
[...] This post was mentioned on Twitter by Hugo Morais and Hugo Morais, Revista O Inimigo. Revista O Inimigo said: Square Shells, novo EP de Kurt Vile, investe no folk descarnado. Leia mais aqui; http://bit.ly/azLnxP [...]
[...] que ouvi esse ano. King of the Beach, do Wavves (aqui) e Square Shells, EP novo de Kurt Vile (aqui).També no ar, uma entrevista assaz filosófica com a cantora conterrânea Simona Talma [...]
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