Quando surgiu de uma hora para outra, já nos acréscimos das listas de melhores do ano de 2008, Nathan Williams e seu Wavves deixaram a indiezada em polvorosa. Também, pudera: Wavves é indie, punk, pop, surf, noise, maconherístico e _____________ (insira aqui o adjetivo descolê de sua preferência) o suficiente para pressupor o ressurgimento de uma cena que não se sabe bem qual é, mas que certamente difere bastante do experimentalismo de brechó e do poperô cabeçudo que o rock alternativo vinha engolido nos últimos tempos.
Corta para uns meses dentro do hype: escalado para um dos palcos principais no Barcelona Primavera Sound Festival, Williams mistura birita com anti-depressivos, Fernando Vanucci style, e surta na frente da plateia, que irritada começa a atirar coisas nele. A esse vexame, segue uma turnê européia cancelada em questão de poucas horas, tretas mal explicadas com o pessoal do Black Lips e um anúncio relâmpago de “hiato por tempo indeterminado” que não passou de lorota ou de um jeito mais enfeitado de dizer “vou ali tomar uma cerva e já volto”.
E agora, pouco mais de um ano depois desse imbróglio, o Wavves está de volta. E que esteja de volta com um álbum do quilate de King of the Beach é caso para ser estudado na posteridade. E por posteridade, digo daqui a uns quatro anos e meio quando essa safra de 2010 já vai levar a pecha de “dinossauros” do rock. E até lá não se espante se, entre os encarquilhados do futuro que são os vistosos de hoje, esse disco seja um dos poucos a ainda valer a pena.
A rigor, a diferença de King of the Beach para os dois discos anteriores é puramente estética, já que os mesmos ingredientes citados ali em cima ainda estão todos presentes e as letras, como sempre, não fogem muito do trinômio maconha-verão-vida besta (a única exceção talvez e apenas TALVEZ seja “Idiot”, onde o refrão atrevido pressupõe uma banana para os detratores).
Não, a grande novidade no novo do Wavves é o leve esmero nos botões da mesa de mixagem, o que limita o número de ruídos e guitarras vazadas e consequentemente leva a uma apara mais rente das arestas em relação a tosqueira desmedida dos dois primeiros discos. Cabe até dizer que Williams anda mais pop (no sentido bom da coisa), empilhando referências aparentemente díspares, mas que no fim saem tão bem arranjadas quanto as camadas de um sanduíche de beira de posto às três da manhã. Vide a levemente new wave “Baby Say Goodbye”, a quase-balada “Green Eyes”, a tortíssima “Convertable Baloon” ou “King of the Beach”, a canção punk mais ensolarada desde que os Ramones desaprenderam o caminho até Rockaway Beach. E se faixas de discos anteriores como “Summer Goth” já lembravam os Pixies, no disco novo “Take on the World” se destaca como um trabalho de conclusão do curso Frank Black de escrever músicas para a guitarra. O mesmo vale para “Linus Spacehead” (Nirvana fase Bleach) e “When Will You Come” (Beach Boys de garagem).
Ok, o forte do Wavves não é a originalidade e não sou eu o besta que vai tentar te convencer do contrário. Mas quem se importa? Como escreveu certa vez o grande Emerson Gasparin, originalidade é coisa para world music, diversão em primeiro lugar. Saúde!
Gostei mais desse do que o anterior. Acho que puxar o freio de mão do noise foi uma boa pedida.
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