Antes que alguém se apresse em nos acusar de apologia, alto lá. “Não compre, plante!” é o singelo título da primeira música do álbum Usuário. A banda era o Planet Hemp. Figura mítica dos anos 90 e que pariu Bacalhau (hoje no Autoramas), B Negão (hoje no B Negão & Os Seletores de Frequência e Turbo Trio) e Marcelo D2, que segue segurando seu próprio nome, não da mesma maneira, mas segue. Também faziam parte da banda Skunk, que morreu em decorrência da AIDS, Formigão e Rafael. 15 anos completa em 2010 o álbum. É da mesma safra de Da Lama ao Caos e Samba Esquema Noise, de Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, respectivamente. A trinca marcou a década de 90 e escondeu muitas outras bandas boas.
Chico e Nação, junto com Mundo Livre S/A defendiam a mistura de ritmos nordestinos com o rock, o funk, o hip hop e o que mais viesse. O Planet Hemp do mesmo jeito, só que mais carregado no rock, hip hop e rap. E com a temática voltada ao Rio de Janeiro e a legalização da maconha. Se hoje o assunto ainda gera polêmica, imagine há 15 anos. Os títulos das músicas eram bem diretos: “Legalize Já”, “Maryjane”, “Porcos Fardados”, “Bala Perdida” e a já citada “Não compre, plante”. Mais direto impossível. Polícia e droga, íntima ligação.
Não lembro ao certo, mas foi por volta de 1996/1997 que a banda veio a Natal pela primeira vez. Não existia nem de longe o sonho dos dois festivais que hoje a cidade abriga. Os shows eram feitos na raça mesmo, o underground era underground mesmo. A casa dos shows menores já era a Ribeira, só que sem estrutura. O show aconteceu no Casarão. O nome alusivo a beleza da fachada dos prédios históricos do bairro, e só. Caindo aos pedaços, com dois ventiladores de teto bem próximo as cabeças, banheiros com portas imprestáveis e paredes esburacadas. A banda tinha que passar no meio do público antes de chegar ao palco. Se é que aquele tablado com 50 centímetros de altura pode ser chamado de palco. Atrás de Bacalhau uma luz que fazia o baterista suar que nem uma chaleira.
Antes do show começar, fui com meu amigo Renato tomar uma cerveja em um carrinho de cachorro-quente. Ao sentar observamos duas figuras ao nosso lado em outra mesa. Bacalhau e Formigão. Na maior paz tomavam sua cerveja em meio ao anonimato. Internet eram as revistas e a MTV. Que naquela época tinha uma programação supimpa. Folheando o encarte do álbum enfumaçado, vejo Bacalhau ainda com cabelos vestindo uma camisa da Vision Street Wear, marca que vestia muitas bandas, inclusive a Resist Control que fora um clipe na MTV e participação numa coletânea, nunca mais ouvi falar.
No meio do show Marcelo D2 acende o baseado e convoca o público. O tablado era resistente, porque a banda sumiu em meio a tanta gente que queria fumar. Pra mão de D2 ela não voltou. Mas tudo bem, ele já devia estar com a cabeça feita. O show, como de se esperar, foi curto. Tocaram o disco e tchau. Mas o estrago estava feito. E antes do show começar. Sentados a mesa bebendo a cerveja vislumbramos a polícia dando uma dura numa turma que tinha acabado de chegar por uma das ruas adjacentes. Todo mundo na parede, braços e pernas abertas. O famoso baculejo.
O caminho que a banda trilhou é o mesmo que centenas de outras. Mas poucas chegam ao estágio de ganhar dinheiro e viver da música. Diversão é garantida, já dinheiro e fama… É engraçado conversar com pessoas que vivem outra realidade, consomem outra música, elas não entendem como uma banda pode pagar pra tocar, viajar sem ter onde ficar, gravar discos que serão distribuídos e não vendidos. A banda fez esse caminho e pouco tempo depois chegou as manchetes. Culpa da apologia ao consumo de drogas. Shows foram cancelados e eles chegaram a ser presos. O grupo aos poucos foi se desvencilhando da fumaça, mesmo sem nunca tê-la abandonado, culminando com o fim, mesmo que não tenha sido anunciado oficialmente. Há rumores de volta. Rumores.
Enquanto isso Bacalhau toca bateria mundo afora com o Autoramas, B Negão faz seu baile funk com Os Seletores de Frequência e Turbo Trio, também mundo afora. E Marcelo D2 procura a batida perfeita. Nada que Jorge Ben já não tenha achado, na década de 70. Ainda gravaram Os Cães Ladram, Mas a Caravana Não Pára, A Invasão do Sagaz Home Fumaça e o MTV Ao Vivo Planet Hemp. Mas nenhum tem a importância do primeiro. Podem até ter vendido mais e tornado a banda mais popular, mas o primeiro é o mais incisivo nos temas e no som. A banda ainda fez vários shows em Natal, mas o primeiro sempre é o melhor, é a novidade. Sem falar que depois a marra tomou conta de D2, assim como aconteceu com Digão, dos Raimundos.
Se a década de 90 te interessa, baixe a coletânea Fim de Século. Ela está no site da Midsummer Madness e tem 30 bandas, cada uma com uma música. Muitas conseguiram projeção. Estão lá Pato Fu, Raimundos, Eddie, Maskavo Roots, Graforréia Xilarmônica, Acabou La Tequila, Devotos de Nossa Senhora Aparecida, The Dead Billies, Concreteness e Pravda! A seleção foi feita por Gabriel Thomaz (Autoramas). Vale a pena baixar e conferir a produção indie 90.
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Fiquei muito feliz quando deu pra juntar dinheiro na epoca e consegui achar e commprar esse cd. Realmente marcou o periodo. Nao fui nesse primeiro show mas estive em outros que eles fizeram na Ribeira.
Lembro tb do clipe de “Puta disfarcada” que passava na MTV,musica do mesmo cd.
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