Com o revival dos anos 90 dobrando a esquina, não se surpreenda se de repente a guitarra, aquele instrumento retrô hoje redivivo nos adeptos do neo-metal farofa, voltar à crista da onda. Desde o fim do grunge e da implosão do tal rock “alternativo”, o outrora instrumento símbolo do rock não ganha o tratamento adequado, nem uma renovação de vergonha no seu trato. Em Astro Coast, disco de estreia do quinteto americano Surfer Blood, não há nenhuma reinvenção das seis cordas, mas sim um retorno àquele lindo som guitarreiro desleixado e barulhento que fez mais felizes as tarde da MTV circa 1995. Ah, aqueles acordes frouxos, “solos” de feedback, Fender Jaguar reluzindo, camisas de flanela tremulando nos quintais da rapaziada…
Fim da viagem nostálgica: pois então, temos aqui um disco de guitarras. Devendo até o fundo das calças a Yo La Tengo, Pavement, Built to Spill e outros BALUARTES dos 90, o Surfer Blood consegue a proeza de declarar em voz alta suas influências sem precisar macaqueá-las. A pegada de “Swim”, primeiro e longamente alardeado single do grupo, é perfeitamente reconhecível e familiar, mas nem por isso facilmente associável a essa ou aquela banda predileta. Boa parte disso certamente se deve a preocupação em não soar ostensivamente retrô na sonoridade, buscando uma identificação com seu próprio tempo. Apesar do sabor noventista, no futuro não haverá quem conteste que esse disco foi gravado nos anos 00 – a discreta percussão estilo “afro-indie-freak” em algumas faixas há de demolir todas as dúvidas. O restante do mérito está nas canções em si e no talento para boas melodias e letras com um senso de humor perverso – lembrando instantaneamente os patrícios do Holger, outros assumidos viúvos dos 90.
Analisemos “Twin Peaks”, por exemplo, uma típica canção de reminiscências amorosas, baseada num gancho melódico de canto-resposta tão simples quanto o vocabulário da Mallu Magalhães. O twist está na letra e como esse gancho é usado para revelar a verdadeira natureza da canção que, sim, trata de reminiscências amorosas, mas não exatamente do jeito que se espera: “Twin Peaks and David Lynch/Met on your couch at Syracuse/Your sexual advances/Are unconvincing and untrue”. A fórmula, batida como possa parecer, funciona se bem aplicada e a repetição só rende bons dividendos. E aí segue pelo resto do álbum, em bons momentos como “Harmonix”, “Catholic Pagans”, na instrumental “Neighbour Riffs” e na belíssima “Anchorage”, com seus seis minutos de palhetadas sujas. Uma leve escapada da fórmula, que deixa entrever que de fato há algo de saudavelmente errado com as cabeças dos caras do Surfer Blood está em “Slow Jabroni”, que começa como uma baladinha folk meio maleta para, da metade pro fim, se transformar num lamento ruidoso e melancólico.
O Surf Blood, que fique claro, não está aí para reinventar a roda, salvar o rock ou a brincar com as suas vãs emoções. Mas é digno de nota o fato de que, desde o súbito aparecimento do Vampire Weekend, não se via uma de estreia tão promissora e com cara de álbum de verdade, ao invés de um punhado de faixas amarrotadas juntas para acomodar dois ou três bons singles. Já é um excelente começo.
*Veja vídeos de Surfer Blood
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