Existem poucas ideias mais estúpidas do que querer gravar uma versão de The Dark Side of the Moon. Da Jamaica ao Pará, todo pé-rapado munido de guitarra, tambor de lata e aditivos químicos já fez a sua, transformando o clássico do Pink Floyd em dub, funk, guitarrada, bluegrass e o que mais mandar a falta de noção. E como falta de noção é justamente um dos combustíveis de Wayne Coyne e seu Flaming Lips, advinha como foi que o cidadão decidiu encerrar 2009? É, regravando Dark Side of the Moon. E para completar a suruba, ainda convenceu Henry Rollins, Peaches e os obscuros Stardeath and White Dwarfes (cuja maior credencial é empregar Danny Coyne, sobrinho do homem) a participar da brincadeira.
Confluência indigesta de protagonistas a parte, o projeto tinha tudo para dar errado. Além de ser uma ideia batida, o álbum do Pink Floyd está para o panteão do rock empoeirado assim como, digamos, os episódios antigos de Chaves estão para qualquer um que tenha tido contato com uma televisão nos últimos vinte anos. Assim como Chapolim, Kiko e Seu Madruga, Dark Side é uma entidade onipresente no cotidiano da cultura pop. Tendo vendido mais de 30 milhões de cópias no mundo desde a época de seu lançamento, é praticamente impossível que um minuto se passe sem que o álbum original toque em algum lugar do planeta.
Se a responsabilidade não afastou os predecessores menos gabaritados, que dirá os Flaming Lips, filhotes diretos de Syd Barret, sempre ávidos por uma tortice. Enquanto outros se preocuparam em adaptar os arranjos originais para suas respectivas searas musicais (acelerando, diminuindo, adicionado percussão, violões, etc), Coyne e seus asseclas preferiram primar pelo desrespeito total. Não fosse o auto-explicativo título oficial do álbum (The Flaming Lips and Stardeath and White Dwarfs with Henry Rollins e Peaches Doing the Dark Side of the Moon), um cidadão desavisado levaria alguns minutos para reconhecer aquela linha de baixo gorda embrulhada em microfonia e feedback que salta da faixa de abertura como sendo algo originalmente escrito pelo Pink Floyd. Leva quase três minutos para entrar a voz, suave e com ecio: “Breathe, breathe in the air…”
O desrespeito e o clima de jam session continuam no decorrer das faixas, que no geral demoram mais do que o convencional para de fato “começar”. Mas quando o fazem o resultado é sempre surpreendente. A tomar nota no caderninho de momentos memoráveis: Peaches se esgoelando e injetando groove e sujeira em “The Great Gig in the Sky”, os samples de relógios que abrem “Time” substituídos por uma tosse suspeita, vocoders infestando a letra de “Money”, “On the Run” despida da categoria de música abstrata e transformada numa faixa de verdade, de fazer o Rapture ter um ataque apoplético.
Infelizmente, só para comprometer o resultado, há uma freada brusca na reta final do álbum. “Us and Them”, a faixa que mais desesperadamente precisava de uma repaginada, perde o sax de motel, mas não faz muito progresso fora isso. No geral, conseguiu ficar ainda mais chata, só com teclados e a voz de taquara trincada de tio Coyne. O mesmo vale para “Brain Damage”, que afora um conjuntinho de ruídos e pedais estridentes, pouco difere do arranjo original – e se mudou alguma coisa, foi pra pior. Sorte que entre as duas há a instrumental “Any Colour That You Like”, aqui tocada com um peso nunca sonhado pelo finado Rick Wright (e com uma linha de baixo lembrando o interlúdio da não menos clássica “Echoes”), fechando com a apoteose de “Eclipse”, encharcada de wah-wah.
No fim das contas, a versão do Flaming Lips não deve ser levada tão sério. Afinal, é sempre difícil saber quando esses caras estão brincando ou não. O fato é que, independente das intenções reais por trás disso tudo, a versão dos Flaming Lips para Dark Side é a única a de fato respeitar o espírito original de ambição e grandiloqüência do álbum original. A diferença é que em vez de mudar o mundo por meio de uma discussão tediosa a respeito dos males que afligem a existência do homem, a ousadia do Flamings Lips se concentra em subverter e despir de seriedade um totem que todo mundo lambe os pés.
A conclusão a emergir desse quiproquó todo é mais simples do que a linha de baixo de “Money”: por trás da sombra clássica, restam as boas canções. E, como diz a clássica frase que encerra ambas as versões, não existe um lado negro da lua. Na verdade, é tudo escuro.
O conceitual e perfeito Dark side of the moon é um dos albuns mais importantes da discografia da música pop. Ressaltando que é uma produção fantástica do começo dos anos 70 (disco lançado em 1973),com a fabulosa engenharia de Alan Parsons. Ainda não ouvi essa nova piração de Coyne…
Pelo o começo do texto pensei que ia ser uma merda esse albúm. Mas, confesso que fiquei curioso escutar ao menos o grito de pecheas em Great GIg in the Sky.
Putz, e eu curti mais justamente o lado B. Aliás, pra mim, conseguiu superar o anterior, Embryonic, absurdamente mais viajandão.
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