Todo fim de ano é a mesma coisa: lá vem a inevitável listas dos melhores, sejam filmes, músicas, discos, atores. Relativamente fraco de boas novidades tanto na gringa quanto na terrinha, 2009 foi um ano mais produtivo para os dinossauros do passado que resolveram deixar as cavernas (e acabaram soltando bons discos) ou aos velhos conhecidos que fizeram valer nossa confiança neles.
No quesito dos dinossauros, vale lembrar ainda que seja só de passagem os discos de Bob Dylan (Together Trough Life), Daniel Johnston (Is And Aways Was), Meat Puppets (Sewn Together) e Dinosaur Jr. (Farm). Entre os velhos conhecidos, saíram coisas boas de Wilco (Wilco), Andrew Bird (Noble Beast), Black Lips (200 Million Thousand) e outros que a ressaca impede de citar. No balaio de gato que é a indiezada nacional, Black Drawing Chalks (Life Is A Big Holiday For Us), Wry (She Science), Móveis Coloniais de Acaju (C_mpl_ete) e AMP (Pharmako Dinâmica) também aprontaram das suas, mas não convenceram a redação.
Eis os felizardos que passaram no crivo.
Arctic Monkeys – Humbug
Pouco mais de quatros anos se passaram desde que os Monkeys apareceram como a última bolacha do pacote de Club Social que o rock inglês tinha virado depois do fim do Libertines (aliás, a antepenúltima bolacha). De lá para cá, mudaram os cabelos, mas a voz e o talento para compor pequenas crônicas da vida urbana nos anos 00 continuam os mesmos… só que melhores. Maduros sem ser chatos, injetando peso e umas palhetadas psicodélicas, Alex Turner e sua patota conseguiram finalmente fazer um disco bom do início ao fim, sem faixas chatas e indesejadas. Ainda não é o suficiente para justificar o tal rótulo de salvadores da pátria, mas ignorar a pujança de tortices como “Crying Lightining” e “My Propeller” é para quem quer posar de retrô.
Yeah Yeah Yeahs – It’s Blitz!
O primeiro disco de uma banda pode abrir portas, o segundo pode fechar, o terceiro… O terceiro serve para confirmar uma das duas anteriores. O Yeah Yeah Yeahs tem um excelente primeiro disco punk, um segundo transitório que não fede e nem cheira e conseguiu no terceiro explorar um lado dançante sem perder o vigor do punk primordial. Karen O domou a voz e os homens instrumentistas foram para um lado mais dançante. E o que poderia acabar com a banda surtiu efeito contrário, deu uma nova cara que agora aponta para um caminho incerto.
Sonic Youth – The Eternal
Quando o Sonic Youth grava um disco ou faz um show, é difícil saber o que vai acontecer. Pode ser só barulho ou podem ser músicas incríveis, undergrounds com pegadas quase pop levadas por guitarras marcantes. E foi isso que The Eternal conseguiu, relevância sem punhetagens mirabolantes. É papai-mamãe gostoso.
Wavves – Wavvves
É tosco, mal gravado, mal tocado, barulhento, pop, bizarro, experimental. E é muito bom. Em pouco mais de um ano, Nathan Williams, o californiano mac maconha por trás do Wavves soltou dois discos, foi alçado a condição de hype, surtou no palco de um festival em Barcelona, foi jogado para debaixo do tapete da crítica e desapareceu das listinhas de fim de ano de boa parte das publicações descolês que tanto o incensaram há alguns meses. Com ou sem aditivos, O Inimigo aprova e consome sem moderação a salada de Pixies com Beach Boys que descamba em lindos nacos de feedback como “Summer Goth”, “No Hope Kids” e “So Bored”.
Built to Spill – There Is No Enemy
Sombrio e, em certos momentos, pertubador, o sétimo álbum de carreira do Built to Spill vale por uma viagem só de ida para uma das luas de Júpiter – e com guitarras. Retomando a veia pop, o líder Doug Martsch não abre mão dos vocais melífluos (uau!) e das guitarradas neil-youngianas. A diferença são as letras sci-fi existencialista, que agora são maioria frente aos recortes dos amores da juventude e do presente.
Them Crooked Vultures – Them Crooked Vultures
Este disco criou uma grande expectativa pelos envolvidos na empreitada e para muitos é excelente, mas não é a sétima maravilha do mundo. Talvez o pré-hype tenha prejudicado a audição. A grande sacada do álbum é exatamente a junção dos músicos e da produção, que compensam a falta de originalidade. O super grupo, como gostam de falar, é uma evolução do Queens Of The Stone Age. Um som mais trabalhado, gerado obviamente pela qualidade de Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters), Josh Homme (Queens of The Stone Age) e John Paul Jones (Led Zeppelin). Projeto esse que promete ser contínuo. Vejamos…
Real Estate – Real Estate
Esse pegou todo mundo de supresa aos 45 do segundo tempo. Se estivessemos todos dentro de um daqueles filmes de high school, o Real Estate seria aquele nerd desajeitado que todo mundo malha, mas que na sequência final é o único que sabe como religar o gerador da escola e salvar o baile de formatura. Sem nada de muito explosivo ou inovador aqui: só um punhado de boas canções gravadas em baixa fidelidade, doses cavalares de Byrds e Galaxie 500 e um talento para a melancolia bem humorada.
Yo La Tengo – Popular Songs
De todos os dinossauros que se levantaram da cova em 2009, o Yo La Tengo parecia ser o menos ofensivo. Discrição sempre foi um dos elementos principais na carreira do trio de Hoboken, New Jersey, e nem os críticos que acompanham a banda desde os primeiros EPs esperavam deles alguma coisa fora do feijão-com-arroz de sempre. Ledo engano. Popular Songs pode não estar à altura de clássicos como Painful e Electr-O-Pura, mas se alinha com um dos melhores momentos da carreira do Yo La Tengo. Majoritariamente pop e delicado (“If It’s True”, “When It’s Dark”), também abre espaço para velvetismos (“More Stars Than There Are In Heaven”) e punk de indie (“Nothing to Hide”) sem perder um milímetro de coerência.
Dan Auerbach – Keep it Hid
De férias do Black Keys, o barbudo bíblico se trancou dentro de casa e saiu com um genuíno exemplar de “rock de porão”. Pilotando quase todos os instrumentos, Auerbach deixa um pouco de lado a pegada blues rock de sua banda titular e chafurda no soul torto (“Real Desire”, “Mean Moonson”), no gospel (“Trouble Weights a Ton”) e no vanguardismo garageiro à Captain Beefheart. (“I Want Some More”), mas sem deixar o velho fuzz de lado. Keep It Hid é mais do que uma curiosidade para o fã – é um documento do talento de um dos mais criativos instrumentistas e compositores do rock atual. Doa a quem doer.
Continental Combo – A Vida é Um Mistério
Sandro Garcia é um cara underground. Participa de vários projetos ao mesmo tempo que não possuem grande visibilidade. Alguns possuem a mesma influência – o rock inglês principalmente dos Kinks. A Vida é Um Mistério foi lançado com apenas 500 cópias. O que prova que Sandro sabe como funcionam os dias atuais e sabe onde quer chegar. O disco é delicado, cheio de dedilhados de guitarra, músicas instrumentais e sons caseiros que dão um toque lo- fi a obra. Tanto a capa quanto as músicas mais uma vez retratam São Paulo como pano de fundo.
Retrofoguetes - Chachachá
A baiana Retrofoguetes é a melhor banda instrumental de rock (e aí o rótulo cai por terra) do país atualmente. O segundo disco não tem unidade entre as músicas, há desde surf music tradicional até sons do leste europeu. São temas que a memória trata logo de associar a um filme de faroeste, ficção científica ou até ao circo. Junte a isso três integrantes com personalidade, bons músicos e concepção visual. Pronto, está feito o estrago.
Otto – Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos
Título tirado da obra A Metamorfose, de Kafka . Otto começou com um disco que misturava música eletrônica com sons regionais. Partiu para mais dois discos menos expressivos (Condom Black e Sem Gravidade) e terminou por lançar o excelente disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos. Muito provavelmente, o disco é fruto do fim da relação com a atriz Alessandra Negrini. O resultado é um disco mais cru, mais simples, sem grandes intervenções eletrônicas. Predomina a excelente banda que o acompanha e letras melancólicas. Ainda cabe uma versão para uma música de Jacob do Bandolim que entra perfeitamente no set, já que a aura da música é a mesma do resto do álbum.
Wado – Atlântico Negro
Este disco não é o melhor de Wado. Os anteriores, Cinema Auditivo e Terceiro Mundo Festivo são melhores, principalmente porque a criatividade não vai pelo eletrônico. O que Atlântico Negro tem de especial é o fato da música nordestina e das influências variadas presentes nele, brasileiras ou não, se completarem de forma equalizada. Como muitos nordestinos sabem fazer. Não carregar no tempero, e sim misturar para dar um ótimo sabor.
Cidadão Instigado – Uhuuu!
O disco do Cidadão Instigado, a banda do Fernando Catatau, pode pegar carona no que há de bom nos discos de Wado e Otto, e de muitos nordestinos, a mistura certa entre várias influências. Inclusive do eletrônico. Junte a isso um senso de humor apurado (exemplo máximo em “Ovelhinhas”) e a falta de uma linha condutora entre as músicas. O disco não segue uma linha reta, sequer as músicas seguem. São quebras de ritmo, de vocal, que torna cada uma única. É como se a parte instrumental interpretasse as letras. Exemplo maior é a música “Doido” que muda de ritmo várias vezes e fala da loucura. No meio do caminho a música pára e entram vozes por meio de Arnaldo Antunes e Catatau, risos, barulhos variados, uma cabeça confusa. A cada audição o disco revela novas nuances, novos elementos.
Diego Medina – Oyo EP
Entre um projeto maluco e outro, Diego Medina, o Mike Patton dos pampas, soltou um EPzinho com 5 faixas. ainda no começo do ano. Parece pouco, mas para quem conhece o trabalho do homem (ex-Doiseu Mimdoisema, Video Hits, Os Massa, etc) sabe do estrago que um computador, uma guitarra e um estúdio caseiro trampado podem fazer na mão desse sujeito. Deixando as jovem-guardices de lado, Medina carregou a mão no pop torto à Super Furry Animals e Ween, frequentando extremos que vão do folk sideral ao trash metal. E funciona que é uma beleza. A bolachinha - e o resto da produção de Medina – está disponível para download gratuito no site da Suma! Discos.
Lê Almeida – REVI
Sem querer querendo, o carioca Lê Almeida desovou um dos discos mais pegajosos do ano. Lançado em vinil 7”, o disco tem 7 faixas e pouco menos de vinte minutos. Fiel à cartilha do mestre Robert Pollard e aos timbres de guitarra dos anos 90, o carioca não demora mais do que um minuto e meio para desfiar refrões que grudam como enxertos de memória na cabeça do ouvinte. Se gemas mal polidas como “Nunca Nunca”, “Curso de Datilografia” e “Canção pro Beto Guedes” não primam pelo apuro estético, ganham de goleada no quesito sinceridade e diversão. Para entrar nos anais do mundinho indie.
lista legal!
Só senti falta do “Sem Nostalgia” do Lucas Santtana. Ótimo disco que pouca gente deu atenção. A lista tá bacana. Podia rolar uma de cinema tb.
Chachachá e The Ethernal valeram mesmo!!!!
=)
Poxa, bacana. Dessa galera indie-doida, senti falta do The Horrors (com Primary Colours)Doves (com Kingdom of Rust)e Pullovers (Tudo que eu sempre sonhei). Mas esse último é mesmo para puxar sardinha de paulista. E, claro, lista é sempre isso: sempre vai faltar alguma coisa…ou mesmo sobrar.
Bacana a lista boes num saco o Real Estate (já tô baixando)mas tirando pelos comparsas vou confiar abralhos a gela já tá no fogo.
acho que o farm do dinosaur jr, strange cousins from the west do clutch e o when sweet sleep returned do the assemble head in sunburst sound só não passam em baixo pro the crooked vultures dessa lista gringa
e acabei de baixar e escutar aqui o ep e o disco cheio do sweethead (banda do guitarrista do qotsa Tiroy van Leuuwen com uns caras da banda do mark lanegan e uma mulher cantando) e achei do caralho também, lançado esse ano tanto o ep quanto o disco, essa banda tá fazendo turnê com o them crooked vultures e é bom a bagaça.
Arctic Monkeys, yeah yeah yeahs, Sonic Youth e Then Crooked Vultures, lançaram excelentes trabalhos, jà comprei todos, claro, em cd o-ri-gi-nal, assim, com certeza, dá pra dizer : “eu tenho este disco”, e não uma copiazinha barata, hehehehe, baixar discos ??? Tô fora !!!
Acho que ficou faltando aí nessa lista, o excelente (na minha opinião, claro) West Ryder Pauper Lunatic Asylum, do Kasabian.
faltou sem nostalgia do luccas santana e o carnaval do inferno do eddie.
Bela lista. Mas Hugo, acho que vcs quiseram dizer no tópico do Yo La Tengo que a banda parecia ser a mais inofenciva. Fabão, listas são injustas. rs. E pelo título de “dinossauros” eles prevaleceram gente mais aintiga, que tipo o Eddie entaria, com o exelente “Carnaval..”. Lucas Santana, Pearl Jam, Móveis, Céu, AMP, Bruce Springsteen, Mastodon, Arctic Monkeys, Zero 7, Massive Attack, Dinosaur Jr. Kassabian, entre outros.. muita gente lançou coisa boa. Vale apena olhar por aí. Mas como disse, lista é injusta. rs.
O bom é que você vem aqui e nos mostram outras coisas. Lucas Santana, graças a Fabão, vim escutar essa semana. E é muito bom. Mas já era. Para 2010 prometo ouvir muitos mais discos e ir anotando desde agora.
Òtima lista
Legal, mas acho que o álbum do Coloração Desbotada (projeto do Lê Almeida) e o Revi 7″ se completam.
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