Em 1989 o vinil ainda rodava com força, as fitas k7 eram a salvação para quem não podia comprar as bolachas pretas e o mp3 nem era sonhado. Foi nesse ano que surgiu o zine carioca Midsummer Madness, que mais tarde viraria selo. E que hoje conta com mais de 60 nomes lançados, mais de 500 músicas. Comemorar vinte anos é uma façanha incrível. Pois o selo Midsummer Madness capitaneado por Rodrigo Lariú,completa em 2009 20 anos de atividades independentes. Ou você acha que ser independente é de hoje? Se você é leitor macaco velho sabe que o indie, como gostam de falar, existe desde que a necessidade se fez presente. Mas se você chegou aqui clicando num link de sexo selvagem e não sabe o que é ser independente, abra os olhos e siga adiante.
Quando surgiu em formato de zine, a MM servia principalmente para Lariú escrever sobre bandas que ele achava legal, o que termina sendo a temática de muitos zines, e dos blogs de hoje em dia: a cara de seu criador. O produto do zine vinha de algumas frentes, como explica Lariú. “Uma amiga minha e da minha irmã, a Bia, e que é amiga nossa até hoje, tinha irmãs mais velhas que compravam muitos vinis. Outro “fornecedor” foi o namorado da minha irmã, o Leandro. O pai dele era dono de uma escola de inglês e assinava Melody Maker e New Musical Express. Além disso, o pai do Leandro era roqueiro então tinha muito disco e dava grana pra ele comprar discos. Por causa disso também, o Leandro tinha muitos amigos que também tinham muitos discos, ou seja, a rede era enorme!”
Em 1992 Rodrigo começou a trabalhar na loja de discos importados Spider. E da mesma forma que o namorado da irmã e a amiga da irmã passavam adiante o que pegavam, foi a vez de Lariú fazer a festa dos amigos copiando tudo que escutava e achava bom. em fitas k7. É, a pirataria já existia há muito tempo. Mas naquela época a coisa era mais romântica e difícil. Discos não eram tão acessíveis e mesmo que existisse a cópia, o original era bem mais valioso, quanto não é hoje em dia, onde a música é tratada quase como descartável. Espera-se que Rodrigo dê mais valor ao produto vinil, cd, o físico. Mas não. “Não me ligo nestes lances. Eu acho uma bobagem quando leio pessoas dizendo que manusear o vinil é maneiro, que é um fetiche. Palhaçada. Eu não tenho esta fixação táctil. Pra mim o que importa é a música. Se for uma boa banda, não importa se é vinil, k7, cd, mp3 ou partitura, o importante é ouvir aquela música”.

Rodrigo lembra bem das primeiras aquisições musicais. O primeiro comprado foi o Hatful of Hollow, do grupo inglês The Smiths. Antes tinha ganho num sorteio de rádio a coletânea tripla Rock na Cabeça. E na sequência ganhou da mãe um Best of dos Beatles, que ele credita ao possível assombro da matriarca com a coletânea tripla. Antes de entrar na Spider o produtor só ouvia rock inglês e americano dos anos 80 e 90. A loja serviu para abrir os horizontes, já que Lariú tinha que ouvir de tudo para atender os clientes: “Ouvi hip hop bom, tipo o que era feito nos anos 90 nos EUA, antes desta babaquice de G-rap e Eminen. Ouvi tudo de metal desde Sabbath até Tool. Teve uma época forte de hardcore americano. Muita coisa 60′s psicodélica. E descobri uma das coisas que amo até hoje que é a Motown. Também reggae e música eletrônica pra caramba”.
Algumas pessoas (ainda) tentam te fuder
Tendo a experiência do selo, Rodrigo partiu para um festival. “Comecei a fazer o Algumas Pessoas Tentam te Fuder em 1998 porque tinha acabado de lançar os dois primeiros CDs do Midsummer Madness (The Cigarettes e Pelvs) e o Abril Pro Rock não quis escalar as bandas porque elas cantavam em inglês. Bobagem, porque nos dois anos anteriores, Brincando de Deus e Pin Ups haviam sido escaladas. Daí pensei a mesma coisa que eu havia pensado em 1989: se ninguém escala as bandas do MM, vamos fazer o nosso festival. E daí foi”. Ele ainda produziu o festival Evidente.
Festival hoje é o que mais tem país afora, e a visão que Lariú tem sobre eles é compartilhada por muita gente. A visão que são importantes, mas as cidades, as regiões, tem que criar suas cenas ou sistemas auto-sustentáveis e criativos. Ele acredita que é importante a banda tocar nos festivais, mas é muito mais importante que elas consigam fomentar a cena local e também circular pelo país tocando em casas de shows, bares, além dos festivais. Para o produtor, o ideal seria que existisse um circuito vivo, auto-sustentável, com criatividade artística. Que se não der para ser nacional, que seja pelo menos regional ou estadual.

Muitos produtores reclamam que as bandas nos dias de hoje, com tanta informação e ferramentas, ainda achem que há espaço para alguém fazer tudo por elas. Ou na outra ponta do pensamento, há os que acham que não precisam das gravadoras porque ainda nutrem a idéia que a gravadora vai enriquecer as custas da banda. Lariú esclarece que o Midsummer Madness sempre foi um grupo de amigos e pessoas interessadas em divulgar música boa. Sendo assim estar em um selo ainda é um diferencial porque é um grupo multiplicador. Lariú também defende a idéia de que o que sustenta os selos, e o seu por 20 anos, é a qualidade das bandas. “Eu gosto de frisar que o selo só é o que é hoje por causa das bandas boas que tem. Que o MM só existe há 20 anos porque todo ano nós descobrimos bandas boas que nos fazem continuar a fazer o que fazemos”.
Com toda essa experiência, algumas provocações são necessárias a Lariú. E que vem de muita gente: por que as bandas dos anos 90, se eram tão boas, não deram certo? Por que as bandas do Rio de Janeiro não são tão boas quanto as que surgem no resto do país e não fazem sucesso? Que bandas deram certo? Lariú não poupa palavras. “Não dá pra responder. A continuidade de uma banda tem 50% a ver com a época em que a banda existe e as facilidades/dificuldades que ela enfrenta. Os outros 50% a ver com assuntos internos. Mas, se a intenção da sua pergunta era saber se, com todas as “facilidades” que existem hoje, se elas continuariam a tocar, a resposta é sim. A época que estas bandas precursoras enfrentaram foi bem casca-grossa. Quem persistia é porque era bom, ou, se não era, aprendia a ser. A Pelvs tem quase 20 anos de carreira e é contemporânea de Second Come, Dash, Beach Lizards. Apesar de todos perrengues, os caras continuaram. O fato da Pelvs ainda existir tem a ver com os 50% internos: os caras, acima de tudo, são muito amigos”.
Lariú toma fôlego e continua a cotenda. “Banda boa e banda ruim tem em todo lugar. O que é “dar certo” para você? Quem “deu certo” nos anos 90? O Virgulóides? O Raimundos? O Planet Hemp? Pro MM “dar certo” não é vender 1 milhão de cópias, tocar na rádio, aparecer na TV e tocar no rádio. Pro selo “dar certo” é gravar músicas boas e fazer com que as pessoas interessadas naquela música boa escutem. Se forem 7 pessoas que gostam daquele tipo de som, mas eu conseguir fazer com que as 7 pessoas escutem a música e gostem, pra mim isso é “dar certo” . Neste sentido, a Pelvs deu e dá muito certo” .
Gostou da Midsummer e do Lariú? Vá lá no site que todas as bandas tem músicas para baixar. E se você tem uma banda e quer mandar material, é bom primeiro prestar atenção no recado encontrado no MySpace da MM. “Nós escutamos todas as bandas. Nos associamos só as bandas que gostamos. Então, para não perder seu tempo, tenha certeza que sua música não vai ofender aos ouvidos do pessoal: My Bloody Valentine, Jesus and Mary Chain, Velvet Underground e Sonic Youth“.
Lariú é macaco velho no pagode dos indies!! Altas bandas iradas mesmo!! Clipes idem!! Irada a matéria!
ESSE É O CARA! SEM ELE E SEM LUIZ CARLOS CALANCA (BARATOS AFINS), O TAL CENÁRIO INDIE BRASILEIRO SERIA BEM DIFERENTE. FAZER SUCESSO É CONTINUAR TOCANDO, GRAVANDO E ESPALHANDO A MÚSICA POR AÍ… “Se forem 7 pessoas que gostam daquele tipo de som, mas eu conseguir fazer com que as 7 pessoas escutem a música e gostem, pra mim isso é ‘dar certo’[...]“. SE TODOS PENSASSEM ASSIM, A VIDA SERIA MELHOR. VALEU, LARIÚ! QUE VENHMA MAIS 20 ANOS!
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