
“Thomas Pappon, que vive em Londres há uns dez anos, era o motor da Fellini. Ele era o cara que sonhava. Sem alguém que sonhe, que tenha paciência, que goste de ensaiar e de beber nos botecos enquanto imagina nomes, características e desfechos para o seu trabalho, você não é nada no rock’n'roll. Se não houver um, ao menos um talento de verdade na banda, você não vai sair da lavanderia onde ensaia. (Nós, ao menos, ensaiávamos numa lavanderia, a da casa de Ricardo Salvagni, o então baterista. À nossa maneira, acho que conseguimos sair de lá)”.
As palavras acima são de Cadão Volpato, vocalista do Fellini — de um texto publicado cerca de dois anos atrás na revista Piauí. O Fellini acabou no início dos anos 90, depois de quatro discos. Thomas Pappon, na ocasião, resolveu se mudar para a Europa, em companhia de sua esposa, deixando para trás o Brasil e sua banda. Não houve briga. Thomas sentiu muito em ter de encerrar os trabalhos do Fellini. Por quase uma década, o grupo representou um papel importante em sua vida. Questões pessoais, alheias à música — um “senso de aventura”, segundo o próprio — levaram-no a buscar o auto-exílio.
A primeira parada foi na Alemanha, na cidade de Colônia. Até se firmar e conseguir mobiliar a nova moradia, passaram-se meses. Finalmente, com algum parco equipamento em mãos, Thomas se viu só, pela primeira vez. Para ele, uma banda era feita de pessoas com gostos parecidos, idéias compatíveis, proximidade. Em um país estranho, de cultura radicalmente diversa, formar um grupo segundo tais preceitos era inviável. Uma das recentes aquisições provou-se extremamente útil: base para a produção de metade da discografia do Fellini, mais uma vez um estúdio portátil seria veículo para as idéias de Thomas. Com ajuda da ferramenta — um gravador caseiro de quatro canais, de fitas cassete —, nasciam as canções que viriam a integrar, anos mais tarde, o disco Os Eurosambas.
O projeto solo de Thomas Pappon foi batizado no plural. O nome The Gilbertos foi escolhido por ilustrar satisfatoriamente, para um possível público europeu, a essência musical das gravações; uma estética enraizada no Brasil, mas com ramificações pela música alternativa anglo-saxônica. Thomas sempre estivera em bandas. No contexto pós-punk dos anos 80, além do Fellini, no qual tocou baixo e guitarra, participou de outros grupos relevantes para o cenário underground paulistano, como o Smack e o Voluntários da Pátria, ambos na bateria. Foi pioneiro em misturar o som frio e cinzento do Joy Division com elementos brasileiros. Agora, ele estava lá.
“Nada atrás do biombo”
O primeiro obstáculo não demorou a surgir. Sem um parceiro, voltava à tona a dificuldade para escrever letras, que vinha de tempos remotos. Thomas não encontrava sequer um assunto que valesse à pena abordar. Embora não planejasse que essas novas canções vissem a luz do dia em sua forma instrumental, o papel de Thomas sempre fora não-verbal. O Fellini teve algumas formações diferentes, mas a essência do grupo residia na dupla Pappon/Volpato — o primeiro cuidando das músicas; o segundo, das letras. A personalidade literária da banda casava tão naturalmente com sua base instrumental que chegava a ser difícil separá-las. Mas foi desse contraste — sutil, tímido, praticamente oculto — que surgiu a identidade do The Gilbertos.
O Fellini foi largamente reconhecido pelas letras de Cadão. Fosse em pastiches pós-modernistas cheios de ironia ou em construções poéticas livres, de refinamento sem paralelo no rock brasileiro, as canções da antiga banda de Thomas sempre forneceram vasto material sobre o qual se debruçar e queimar alguns fusíveis. Ainda que liricamente o trabalho do Gilbertos possa, à primeira vista, soar tão hermético quanto as passagens mais absconsas do Fellini, é aí que reside a diferença. No dilema de não saber o que dizer, a escolha foi o nada. Ou quase.
Pappon passou sete anos produzindo seu primeiro disco solo. Quando se sentiu pronto, ofereceu o lançamento a Rodrigo Lariú, recente contato, cabeça do selo independente carioca Midsummer Madness. Em 1999, Os Eurosambas 1992-1998 veio à tona. Negociações com selos estrangeiros — como o Luaka Bop, de David Byrne —mostraram-se frustrantes, e o álbum ganhou com exclusividade o mercado brasileiro. São doze faixas, cantadas em francês, inglês e um pouco de português. Uma delas, “Everywhere”, é uma parceria com Cadão, versão de uma versão do Fellini. “Polly” é uma balada composta pelo americano Gene Clark, ex-Byrds, em sua breve dupla com Doug Dillard no fim dos anos 60. Todo o resto é trabalho de Thomas.
No decorrer do disco, os anos de encubação se justificam plenamente. Ainda que com todos os seus detalhes hipnóticos e climas envolventes, Os Eurosambas é espantosamente despretensioso. A abertura “Les Trois Maries”, com ares de Serge Gainsbourg, só pode ser definida como um choque. Começa sem cerimônia, e ataca nas vísceras quando a voz de Karla Pappon entra em cena no refrão. Não importa que o ouvinte não entenda francês — a letra não faz muito sentido de qualquer maneira. O refrão, em inglês, quer confortar os ouvidos, mais do que dizer qualquer coisa. Insistindo, a mensagem seria sobre a importância de se ter alguém ao lado, de não estar sozinho. Karla (no encarte, listada como “voz, musa”) aparece pouco a partir daí. Mas seu valor maior, como Thomas declarou, foi estar presente por todos aqueles anos, ouvindo aqueles sons.
Lá se vão dez anos
“Esguicho” deixa ainda mais clara a intenção de Pappon. Sobre uma bela base minimalista com percussão brasileira, violão e sopro, repetem-se as palavras “a coisa… tá demais”. Sinta-se livre para interpretar. O colorido suave ainda engloba sons onomatopéicos de guitarra, que, não fossem tão articulados, poderiam ser atribuídos a um animal. O desenrolar do disco conta com mais letras desconexas, minimalistas e, vez por outra, algo mais elaboradas. A ordem, conquanto, permanece a mesma: “pare de pensar e sinta, se quiser aproveitar isto aqui”. “Jimmy Scott”, homenagem ao cantor de jazz norte-americano, não é em inglês, mas em francês. “Amor Amor Amor” é um mantra lo-fi: “É amor, é amor, é amor / ter amor, amor, amor, e deixar assim no canto, baby”.
Minha Menina antecipa o tema do segundo (e por enquanto último) álbum do Gilbertos — Deite-se Ao Meu Lado, de 2004. “Vem logo, menina, que o filme já vai começar”. O cotidiano de casal, a intimidade. “Eu não vivo sem você, menina”. Segue-se o fechamento, “She’s So Fine”, uma das primeiras canções feitas na Europa, ode em que Thomas e seus overdubs anunciam, num crescendo misterioso e dissonante (o mais próximo aqui de alguma espécie de catarse): “She’s so fine… and she is mine”. Por fim, num coro de alívio quase quieto, a faixa vai embora, encerrando o disco com a mesma displicência com que começou.
No pequeno encarte, ainda, encontram-se uma lista de samples — Jimmy Scott, Patricia Bartoli-Dau, Cinqui So, Arvo Pärt e Quinteto Armorial, “com todo o respeito” —, e desenhos de Cadão (na contra-capa um esboço do Pão-de-Açúcar, sobre a palavra “everywhere”). Nada de letras. Registra-se que o álbum foi gravado num porta-estúdio em Frankfurt, Colônia e Londres; e, por fim, a inscrição “1999, dez anos do fim de muro de Berlim”.
“Stop talking about music”
Em 2002, entre Os Eurosambas e Deite-se Ao Meu Lado, foi lançado o quinto disco do Fellini. Tal como Fellini Só Vive Duas Vezes, segundo trabalho do grupo, Amanhã é Tarde foi produzido em dupla. Como o disco de 1986, foi gravado na sala da casa de Thomas; desta vez, porém, não no Alto de Pinheiros, mas em Londres, numa visita feita por Cadão. O Fellini já voltou a se reunir algumas vezes para apresentações; a mais recente no último mês de julho, em comemoração aos vinte e cinco anos do início da banda. O frontman, radiante, não cessava de apresentar à platéia, entre um velho hit e outro, o taciturno ex-companheiro da Escola de Comunicações e Artes da USP. Como se alguém presente no clube da Rua Augusta não soubesse perfeitamente quem estava ali à frente.
A capa de Os Eurosambas traz uma linda foto de Dirk Gebhardt, retratando Thomas ao lado da esposa, num campo aberto em Colônia. Violão em mãos; pose de João Gilberto; sorrisos serenos, sem exageros. Cabeças inclinadas em cumplicidade — sob a placidez do denso roxo dominante no design retrô de Renato Yada. E o preto, e o branco. E só.
Na parapsicologia de boteco, pessoas com a aura roxa são consideradas amantes de rituais e cerimônias. A audição de Os Eurosambas 1992-1998 é um pequeno ritual; uma celebração da simplicidade, do amor, do sentimento sobre o discurso, da paciência sobre a pressa, da maturidade. É Thomas Pappon, à sua maneira mais pessoal, declarando “stop talking about music, let’s celebrate that shit”. Uma obra-prima de fim de século.
*André Medeiros dá aulas de fisiculturismo e crochê. Nas horas vagas, edita o blog Last Splash.
Esqueci de mencionar um detalhe importantíssimo: o disco pode ser comprado, por uma barganha inacreditável, direto com a Midsummer. Aqui: http://mmrecords.com.br/pages/loja/
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