
Por mais problemas de auto-estima e de falta de identidade que Natal tenha, não há como disfarçar o egocentrismo inerente da condição de capital do estado. Quando se fala na “cena local” do Rio Grande do Norte, imediatamente assume-se que a referida cena se limita à Natal, frequentemente ignorando praticamente toda a região do Seridó, Alto Oeste e adjacências. No entanto, esse pensamento vem mudando nos últimos tempos. Uma leva de bandas e articuladores tem trabalhado duro para colocar o interior do RN no mapa do rock potiguar. Grupos como o Cätärro, Mahatma Gangue, Lei do Cão, Inquisidores e Velociraptors começam a desenhar sua própria cena sem necessariamente passar pela tão sonhada capital. O Cätärro, por exemplo, conseguiu a façanha de firmar parcerias com seis selos para distribuir o álbum Dance Império, Dance! em 2008. O resultado foi uma turnê de 14 datas pelo Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país – feito resvalado, mas até agora não igualado por nenhuma banda natalense.
Por trás de boa parte dessas e de outras ações está o selo Capitão Lixo, comandado por Pedro Mendigo, vocalista do Cätärro e baixista do Mahatma Gangue (recém chegada de um turnê pelo interior de São Paulo). No papo a seguir, o sujeito fala um pouco sobre o selo, os planos para o futuro próximo e dá notícias do que anda rolando de interessante no outro lado do elefante.
[O INIMIGO]: Como, quando e onde surgiu o selo Capitão Lixo?
[Pedro Mendigo]: O Capitão Lixo surgiu em Mossoró, no ano de 2007, quando tivemos a idéia de criar um selo independente de música punk para lançar as bandas que a gente gosta e levar mais a sério a sub cultura musical e fazer parte dos registros dessa geração de gosto por música esquisita e restrita.
Quais são as ações que o selo desenvolve ? Há algum esquema de parceria com outros selos, coletivos ou algo do gênero?
A estreante em nosso cast, foi a banda Cätärro de Mossoró, que fez uma turnê nacional para divulgar o seu CD-DEBUT, chamado Dance Império, Dance e de lá até aqui em dois anos de história, o selo lançou mais duas bandas brasileiras, são elas Mahatma Gangue (RN) e Velho de Câncer (RS). Através de andanças pelo Brasil e troca-troca de cartas físicas e cartas virtuais podemos estabelecer uma firme rede de contatos que utilizamos para agendar shows e turnês para as bandas ligadas ao selo. O Mahatma Gangue lança em outubro de 2009 um split com a banda sergipana The Renegades of Punk e ambas partirão para uma turnê pelo sudeste para a divulgação do disco e felizmente conseguimos fechar shows em festivais importantes pelo estado de São Paulo, como a Verdurada e o Cardápio Underground. A parceria que fazemos com selos são para a fabricação de cds, que infelizmente devido ao escasso interesse do público por adquirir disco, o dinheiro investido nesses lançamentos volta de maneira lenta e então temos que pensar muito antes de entrar em uma parceria. A grande dificuldade que aponto é a lentidão em escoar o material das bandas que em nosso julgamento são de ótima qualidade. Acho mesmo é que o pessoal não sabe disso, não sabe mesmo o que é sentar na rede, coçar a brecha das pernas e ler um encarte.
Exite uma “curadoria” ou algo do tipo para selecionar as bandas que são lançadas pelo selo?
Com a já citada crise e dificuldade de se repassar discos, temos que pensar várias vezes antes de selecionar uma banda. Um hábito muito comum no meio punk é do selo ser procurado pelas bandas, claro que não é uma regra. Mas particularmente só gosto de lançar banda que realmente me agrade e que esteja na ativa. Tem que ser uma banda de gente doida e que tenha vontade de viajar, não adianta lançar 500 cds de uma banda que não sai de casa, assim você não repassa disco nunca. Só quem vende mais de mil discos no Brasil é o Mukeka di Rato e Confronto, pergunta pra eles o quanto eles têm que viajar para isso ser possível.
Notícias tem chegado por aqui de bandas interessantes que andam circulando por Mossoró e adjacências como o Mahatma Gangue, Catarro, Inquisidores, entre outras. Como anda a cena por esses lados?
O setor está bem animado, eventos interessantes acontecendo e boas bandas se apresentando. Mensalmente tenho organizado junto com Farofa e Ingrid do Mahatma Gangue um evento chamado “Barulho no Beco”, onde já fizemos lançamento da Revista Prego, mostra de fanzines, concurso de fantasias e “kakiado”, discotecagem e apesentação de várias bandas que gostamos. Os Inquisidores já tocaram e retocaram aqui e até acho que eles estão demorando a ir para Natal, para quem gosta de punk rock e morto-vivo é um prato cheio. O Cätärro está ensaiando depois de ter ficado uns meses sem guitarrista, provavelmente no mês de novembro iremos agendar uma festa para a sua volta e convidamos a todos os terrestres para essa noite.
Muito se fala que Mossoró é uma cidade culturalmente mais próxima do Ceará do que do Rio Grande do Norte. É verdade? Se não, porque o intercâmbio entre a cena daí e a da capital ainda é tão pouco?
Eu não acho que o intercâmbio entre Natal e Mossoró seja pouco. Só no Beco das Frutas (lugar onde realizamos o Barulho no Beco) já passaram Frattelli, Antiskieumorra, Dead Funny Days e Os Bonnies. E o Mahatma Gangue tocou em Natal 2 vezes em menos de um ano. Sem falar no Cätärro que enojou os ouvidos dos natalenses por uns cinco anos. E ainda Lei do Cão, Velociraptors, Chiaki Kiddo, Mr. Pow, Parole e outras bandas que passaram por aí. Se formos falar de fluxo de bandas, atualmente a coisa anda equilibrada, mas uma opinião bem particular e baseado na história das bandas que fiz parte, eu percebo uma afinidade maior entre Mossoró e Fortaleza pela maneira de se produzir os eventos no meio punk/hardcore. Todas as vezes que toquei em Natal, os eventos foram realizados em lugares enormes que precisaram de uma aparelhagem sonora equivalente a seu tamanho. Isso traz consigo um glamour que vez por outras faz referência com espetáculos. Em Natal as pessoas se vestem melhor talvez por estarem se preparando para ir a esses espetáculos e aqui bem como em Fortaleza é mais comum ver alguém de havaianas, por quê fazemos muitas vezes em lugares menores, quintal de “brother” e boteco no centro. Natal tinha espaços mais democráticos e divertidos como o Vice-versa e Bar do Pedrinho, mas hoje nenhum deles funciona para gigs.
Quais sãos os próximos passos/lançamentos do Capitão Lixo?
O próximo passo é o lançamento do split Mahatma Gangue com The Renegades of Punk, seguido de turnê para divulgação do material. Tudo foi agendado para outubro [N. do E.: Quando você estiver lendo isso, a turnê já deverá ter rolado e o split deve estar disponível para pedidos no myspace do Capitão Lixo ou pelo e-mail capitaolixo@gmail.com]. Em fevereiro de 2010 já estamos acertando as datas para a vinda dos gaúchos do Velho de Câncer que ficam no nordeste de 1° a 28 do mês e tocarão de Salvador até Fortaleza. Axé e frevo neles!
Mendigagem refinada.
pedro é gênio. Sou fã dele!
ahahahahahahhaha
Pedro comanda essa crew doida de mossoró!!
fuderoso!
“Natal tinha espaços mais democráticos e divertidos como o Vice-versa e Bar do Pedrinho, mas hoje nenhum deles funciona para gigs.”
mossoró e caicó estão borbulhando
Excelente texto, foto idem!
muito bom, sucesso para essa rapaziada da camisa preta.
[...] compras”. Eles estão em seu melhor momento e já vem mais um disco em breve. Nesse momento Pedro Mendigo estava no cangote de um amigo sem camisa fingindo nadar. O Bugs vem crescendo e precisa [...]
[...] das compras”. Eles estão em seu melhor momento e já vem mais um disco em breve. Nesse momento Pedro Mendigo estava no cangote de um amigo, sem camisa, fingindo nadar. O Bugs vem crescendo e precisa [...]
bem legal o papo!
Os caminhos se alargam. Os interioranos podem orgulhar-se de suas subculturas. A vida cresce, amigo! Mossoro, Areia Branca, Caico e o rock.
Pedro é um dos culpados por isso!
otima entrevista.
“…Velho de Câncer que ficam no nordeste de 1° a 28 do mês e tocarão de Salvador até Fortaleza. Axé e frevo neles!”
faltou o nosso querido e adorado FORRÓ Mendifo veio de luta
hauahauahuahauahauhauahau
e continue construindo espaços e ajudando o rock doido dai de moscow e do Brasil =)
Entrevista elucidativa.
Foto mais ainda.
É engraçado ver Pedro falando sério.
Por Equipe O Inimigo em 18/08/2010
Foto: Rebeca Correia No futuro, quando os biógrafos da cena local forem situar a terceira onda do rock natalense (netos da época das domingueiras psicodélicas do Impacto Cinco, filhotes tardios do Mangue Beat, Raimundos e General Junkie, aditivados por Los Hermanos, Radiohead e o boom do indie via web) certamente haverá um capítulo de honra [...]
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