
O filtro de seleção é um item tão importante para um brasileiro como uma toalha é para um mochileiro das galáxias. Em nenhum outro lugar se convive tão próximo ao pernicioso quanto no Varonil. Se executarem um best of das músicas mais populares dos últimos 10 anos, certeza que metade dos refrões já estão decorados. Mas essa porção onipresente e indesejável da nossa cultura só é lembrada por força de sua insistência. Ninguém gosta e ninguém lembra de tudo isso porque quer, mas porque não tem escolha. A música popular é a única que filtro de seleção nenhum consegue barrar, por mais refinado que seja. Os três discos da Cidadão Instigado passam uma impressão de que Fernando Catatau deve ser uma das poucas pessoas que conseguem não só não rejeitar esse tipo de música, como tirar proveito da sua onipresença para absorvê-la da acusação de burra. Como seu filtro de seleção é mais amplo, capta conscientemente o que chega até o resto das pessoas à força.
Quando Catatau faz com que o produto final atinja o objetivo natural de soar bem mais valioso que a sua matéria-prima, ele faz coisas indispensáveis como todo O Método Túfo de Experiências. Quando não, a paciência para garimpar em meio a alguns equívocos se faz necessária, como em Uhuu!, que vem num pacote todo bonito e já depois que o nome “Cidadão Instigado” foi atrelado, com razão, ao “originalidade”, gerando umas expectativas prontas para serem frustradas ao menor sinal de mudança.
E, de cara, dá pra notar que a discografia do Falcão foi trocada pela da Blitz no lar dos Catatau, o que levou à decisão não muito legal de se agarrar a um sintetizador, em detrimento da guitarra que já foi tão bem manipulada. Sobram espaços em branco ou precariamente preenchidos onde antes haviam solos de guitarra realmente sensacionais, sendo substituídas por aquelas vinhetas de pegadinha do Silvio Santos, “fuem fuem”, fazendo com que a maioria das músicas tenham só 2/3 de seus tempos de execução aproveitáveis. A partir de “Doido”, dá para exemplificar bem essa impressão de incompletude que fica quando se houve todo o Uhuuu!.
Essa música tem o começo mais bacana de todas as músicas do disco: guitarra suingada e prolongada. Quando o vocal entra, é quase um minuto de “fuem, fuem” adornando toda a situação constrangedora que sai da boca do Catatau. Não que as composições do rapaz sejam sempre exemplares. Mas elas podem ser chamadas de, no mínimo, ingenuamente engraçadas quando estão em segundo plano, atrás de um barulho criado com sustância. Quando uma letra como “Doido, também estou com medo/também estou confuso/só ainda não tive tempo de ter um colapso nervoso” fica em evidência, com as sílabas pronunciadas lentamente, o ouvinte só quer enterrar a cabeça de vergonha alheia em qualquer buraco. Mas, ao fim da primeira estrofe, a sonoridade da guitarra no início volta e fica até o final, redimindo, por pouco, o que seria um desastre do calibre da estréia da Cidadão* (o fato do Arnaldo Antunes participar dessa tem o peso de uma jamanta na quase ruindade da coisa toda).
Já “Ovelhinhas” tem uma das letras mais engraçadas do Catatau. Parte do refrão é isso: “Eu imagino as bichinhas/se entulhando uma a uma/numa montanha de pelúcia/que de tão fofa foi fedendo”. Como a música tem uns cinco movimentos diferentes, e nenhum deles desinteressante, a conversa sobre ovelhas pulando cerquinhas fica toda engraçada, não-ridícula e ajuda toda a música a atingir o posto de uma das mais bacanas da Cidadão, com sua eletrônica de computador de criança e vocal idem.
Uhuuu! passa a impressão de ser o mais solar dos discos da Cidadão. A impressão só não se confirma porque ele conseguiu fazer um trabalho muito mais decente nas músicas de amor do que em todas as outras. As melhores do disco são “Como as Luzes” e “Dói”. A primeira, suscitando todo o gosto que o mundo adquiriu por Dire Straits e Odair José, e a segunda, uma continuação natural de “Te Encontra Logo…”, música de abertura d’O Método e tão massa quanto as melhores do rei fura-olho de amigo.
Juntando tudo, Uhuuu! carece da boa vontade do ouvinte para ser aproveitado como um todo. Algo como “me aceite, com meus defeitos”. Mesmo pedido que o Catatau vem fazendo em quase todas as suas músicas em favor de uns párias, pode ser tanto um pinto de peitos com o bico preto como o som das AM’s do Brasil. E ele só garante a aceitação porque o pedido é sincero mesmo.
Foto: Urbanaque
Mas, afinal, me diz só uma coisa: você achou o disco bom ou ruim?
A resenha é confusa, Tiago. Ou então não saquei nada direito boa parte dela.
“E, de cara, dá pra notar que a discografia do Falcão foi trocada pela da Blitz no lar dos Catatau, o que levou à decisão não muito legal de se agarrar a um sintetizador, em detrimento da guitarra que já foi tão bem manipulada.”
Discordo desse trecho. Achei o trabalho de synths muito bom no disco… E no Método Túfo eles já são marcantes. Não teve muita novidade em relação ao uso de sintetizadores neste disco.
Mas, afinal, me diz só uma coisa: você achou o disco bom ou ruim? [2]
Honório: nunca foi uma decisão consciente do pessoal aqui do site de não usar estrelinhas, bonequinhos, porcentagens, letras do alfabeto, números decimais e afins. Acho tudo isso válido, mas mais como um complemento do que está escrito, e não como único termo de classificação. Me parece que é isso que cê tá procurando, mas não é desnecessário não? Mesmo com todo o último parágrafo respondendo à sua pergunta de maneira tão óbvia quanto um B-, ou um 7.6, ou um 3 out of 5?
Gurgel: não teve mesmo novidade não, nem disse isso. Falei que ele se agarrou a um sintetizador, em detrimento da guitarra. Preferiu o primeiro ao segundo, o inverso do que foi feito no Método. Mas, como disse algumas vezes, ele acerta mais quando o sintetizador não trabalha sozinho. Daí eu falar que sobram espaços “precariamente preenchidos”.
Quanto à confusão, acredito que está tudo completinho, menos pro Dalua.
[...] em Sem-categoria por Tiago Lopes em Outubro 5, 2009 Aqui, eu faço trabalho braçal sem me importar com as implicações morais. leave a comment [...]
Não, Tiago, definitivamente não estou procurando nada disso. Entretanto, como o exercício da crítica implica a opinião de quem critica – e a sua não está clara no artigo – resolvi perguntar.
Por exemplo: particularmente, achei esse disco uma bela bosta. Já não gostava do Cidadão Instigado e esse “Uhuu!” foi a deixa pra apagar a banda da memória do PC.
Mas no seu artigo você não diz nem se gostou ou se não gostou: sobe no muro, olha pro outro lado, mas não sabe se pula ou desce.
Sem pontuação, tomates ou sinal de fumaça: apenas afirmar se gosta ou não gosta basta.
Eu gostei, mas o de Otto está melhor.
Com exceção de uma ou outra música, Cidadão Instigado nunca me instigou (com o perdão do trocadilho tosco). Algumas músicas parecem uma cópia mal feita de Mundo Livre S/A.
Concordo com Hugo, Otto é melhor.
Duvido ter um melhor que o do Cidadão neste ano, no Brasil. Mas vou dar uma conferida nesse do Otto (que confesso, perdi a paciência desde “Samba pra burro”…)
Nem gosto de responder a comentários, mas Honório tá insistindo. A minha opinião está aí, fiz a tarefinha direitinho e correspondi corretamente ao tópico “exercício da crítica implica na opinião de quem critica”, só não dessa maneira for dummies que cê tá esperando. Porque né, revistas de música inteiras são feitas em cima de um “gostei” ou “não gostei”.
Tiago,
Você acha que seu texto está “completinho”. Mas a partir do momento que você o publica, aquilo que escreve está sujeito à interpretação de terceiros, por isso eu disse que estava confuso. Assim como Alexandre teve a mesma opinião. Independente da sua intenção de não classificar o disco como a crítica comum costuma fazer.
Saiba receber críticas numa boa, sem menosprezar os leitores dessa forma (dummies, DaLua). Deste modo, parece mal educado você. E pretensiosamente mais inteligente de que a audiência do site. Algo que você seria se fosse mais claro na sua mensagem.
Abraço!
As resenhas desse cara são sempre confusas. Além de faltar clareza, ele entope o texto de referências obscuras, talvez pra dar uma de cult. Dá mil voltas pra dizer o que se pode resumir em uma frase, o que torna o texto chato de ler, arrastado. Uma dica, Tiago: um pouco de humildade e senso crítico não faz mal a ninguém.
disco do ano esse uhuuu e carnaval do inferno do eddie…salve a musica nordestina
Infelizmente pouquissimas pessoas sabem reconheçer uma grande banda impar! o cidadão é uma grande banda o instrumental sombrio é perfeito e o vocal de catatau e dai? combina com o som sombrio da banda cheio de maravilhosos efeitos, somos poucos mais muito poucos que conseguem admirar uma joia , viva ao Cidadão Instigado e lamento aqueles que criticam e sao cegos , querendo sempre a mesmice (Bôsco-Caruaru-PE.)
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