
Ele atende por Retrigger, chama-se Raul Duarte. Mora em Belo Horizonte, famosa por bandas como Pato Fu, Sepultura e o Campeonato Mineiro de Surf, que acontece anualmente no bar A Obra. Um alienígena em meio a bandas de surf music? Nem tanto, ele mesmo curte o gênero e arrisca umas pitadas de reverb em suas músicas. A mistura e gosto pelos bits e o reverb é comprovado pelo próprio dj: “acho que eu sempre quis fazer música, mas não rolou de eu fazer aula de nenhum instrumento quando eu era mais jovem. Me mudei para Belo Horizonte para fazer faculdade, em 1998. Aqui tive mais contato com a cena, a música e fui me enturmando. Nesse ano teve o primeiro show do Man…or Astro-man? e do Atari Teenage Riot, e eu fiquei muito empolgado com tudo aquilo. Daí começei a pesquisar a internet de como fazer música realmente legal com um computador. Para minha sorte existiam vários programas e a maioria era freeware. E desde então eu venho tentando aprender como fazer música no computador”.
Das cidades brasileiras com tradição em revelar boas bandas parece que Belo Horizonte anda estagnada. Não se tem notícia de bandas recentes boas por lá. “As bandas não tocam muito e já não há aquela interação toda. Muita gente mudou de BH, por diversos motivos, e as bandas foram minguando. Não sei se existem tantos lugares assim pra tocar, principalmente com bandas. Há lugares para shows grandes, mas não é por aí que a cena independente se organiza. Existe também A Obra, que é famosa pelo Brasil, mas que já não é o espaço que já foi. Temos outras opções, que são as que eu me insiro e venho me divertindo bastante. As casas mais voltadas para DJs e os shows feitos na rua”.
Raul já tocou em festivais como BPM, Festival de Artes Digitais, em Belo Horizonte e o Festival de Linguagens Eletrônicas (FILE) em São Paulo. Tocou também na Europa, mas a vida dele não parece muito diferente das bandas independentes brasileiras. “Já toquei na europa com cachê em Euro e passagem entregue em casa. E logo depois emendei um show com 15 pessoas e 2 cervas de pagamento. Ia ser legal que melhorasse, mas sinceramente, não tô muito confiante não. Este ano não pintou nenhuma oportunidade de tocar fora de BH ainda. Embora alguns convites tenham aparecido, nenhum que me garantisse o mínimo, ou seja, que eu de nenhuma forma pagasse pra tocar. Minha situação financeira não é nada confortável no momento, então evito este tipo de aventura. Vai ver passei da idade”. Os shows pela Europa (em 2004 e 2008) foram organizados de formas distintas. Em 2004 Raul se juntou ao austríaco Adam Strang e ao alemão Death Sitcom para promover shows usando contatos pela internet. “Foi muito legal, toquei em vários países com vários artistas que eu admirava. Pude participar de uma das (hoje) lendárias festas Breakcore Gives Me Wood numa fábrica de vidro abandonada e alagada pelo gelo derretido que acabou pelas cinco da manhã porque a polícia chegou e acabou com tudo. Foi muito foda”. Em 2008 o dj foi como convidado para participar de um evento no MediaLab, que foi parte da programação paralela da ARCO, evento de arte conteporânea de Madri que teve como país tema o Brasil naquele ano. “Aproveitei que estava lá e fiz uns shows em Portugal também”.
O som feito por Retrigger é resultado das influências que vão desde o psicodélico, passando pelo o Iê Iê Iê, o ska, a surf music, rock de garagem. “Peguei um disco da Motown de ska que é bem legal, chama Motown Flies to Jamaica e tem várias colaborações entre artistas da Motown e artistas da jamaica. Outros que nunca deixo de ouvir são o Messer Chups e o End , que fica aí no meio do caminho entre eletrônico e rock/psicodélico/cabaré/filme do Tarantino. São grandes referências e artistas que já pude trabalhar junto. Ouço também muita trilha sonora, principalmente de filmes feitos na década de 60. Filmes de espião tipo James Bond, assalto a banco tipo Italian Job, criminosos fantásticos, tipo Diabolik e Fantomas, que são mais como James Bonds do crime. Sempre tem umas trilhas legais. Outra coisa que me pega muito é o rock dos anos 40, ou Jump Blues, como chamam hoje em dia. Rythm and Blues com muitos metais, sempre dançante, simples e normalmente com letras bem pornográficas. De onde vem o Little Richard e o Fats Domino. Wynonie Harris é um que eu lembro o nome agora”.
E ornitorrinco voador? Se o animal sem ser alado já é bizarro (um mamífero, com bico de pato e que põe ovo), o que dizer do animal alado? “Hoje em dia todo mundo é mistureba. Mesmo se o cara faz um som chupadasso de outra banda ele dá entrevista falando que é eclético, que busca influências ali e aqui e não sei o quê. Mistura samba com pagode. Ou reggae com ska. Punk rock e hardcore. Todo mundo fala que mistura, mas vejo pouca coisa interessante. Por isso o nome do disco, ornitorrinco tem muitos por aí, mas poucos voam”.
Foto: Luisa ferraz
Baixe o disco aqui.
esses ome são tudo doido, porra é!?
Seria bom se aparecesse por aqui, né?
Seria bom mesmo!
[...] Leia matéria aqui. [...]
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