Por definição rasteira, a última noite do Festival DoSol é sempre tida como a “mais pesada”. O estigma se justifica pela presença de bandas de metal, grindcore e afins na escalação desse dia em particular, dominado pelas camisas pretas saídas dos recônditos mais sombrios de Natal. Porém, se formos para a ponta do lápis dá para notar que nem só de afinações estranhas e longas melenas cacheadas foi feito o encerramento da primeira etapa do DoSol 2008. Colocando num extremo o death metal do Expose Your Hate e o hardcore do Mukeka di Rato e, digamos, o power pop do Distro e os góticos de boutique (pleonasmo) do Plastique Noir na outra margem, dá pra dizer que o passante tinha lá um razoável leque de opções sonoras para fechar o domingo.
O problema, como sempre, é que o preto é uma cor que absorve muito calor. Combina com tudo e, ainda por cima, emagrece. Assim, ao invés da noite de sábado, quando a diversidade da fauna chegava a assustar até os mais abertos a experiências antropofágicas pós-modernas, o público que circulava pela área do festival por volta das 19h do domingo era aparentemente composto em sua maioria por fãs das atrações mais pesadas, notadamente dos paulistas do Torture Squad e o dos papas hardcore do Mukeka di Rato.
Tendo chegado ao local com considerável atraso e perdido o show das primeiras bandas, adentro o Armazém Hall (transformado numa semi-arena, já que o acesso ao pavimento superior havia sido liberado) aos primeiros acordes do Expose Your Hate. Se você nunca viu o show dos caras, imagine a trilha sonora para uma sessão de tatuagens em que um gordão de 137 quilos raspa tua cabeça e tatua um imenso código de barra no teu escalpo enquanto te aplica, por conta da casa, uma sessão de eletrochoque nos testículos. Por mais perturbador que possa parecer, a energia que o EYH desprende do palco atinge níveis de violência cinética estratosféricos. A isso some a técnica absurda com a qual os cinco senhores em cima do palco manejam seus instrumentos e você quase pode ouvir o trotar das quatro bestas aladas descendo pelo teto. Enquanto me recostava na grade de proteção e observava um cesto de lixo vazio ser arremessado em diferentes direções por sob as cabeças da platéia, me perguntei quantas bandas locais conseguem arrancar reações tão passionais de seu público quanto o EYH. Provavelmente nenhuma. Lá fora, em busca de um pouco de ar, encontro a rua praticamente vazia. Isso não quer dizer que pouca gente tenha aparecido. É que simplesmente todo mundo queria ver o show.
Uma vez posicionados no Armazém, as fileiras metálicas ficaram por lá para garantir boa posição no show do Torture Squad. Por conseguinte, poucos se prestaram ao papel de ir ver o Venus Volts no DoSol Rock Bar. Vindos de Campinas, e com uma passagem recente pelo festival Motomix, em São Paulo, o quarteto recicla de forma simpática e um tanto minimalista o que havia de bom no pós-punk, na new wave e no grunge. Apesar de alguns refrões e soluções melódicas previsíveis, agradou e fez dançar quem apareceu. Certamente não eram os mesmos que entortaram o pescoço no show do Torture Squad, poucos minutos depois.
Encerrando a programação no DoSol Rock Bar, o Cätärro, revelação do ano da cena potiguar, mostrou como conseguiram a façanha de ter seu disco de estréia distribuído por nada menos do que seis selos de cinco estados diferentes, além de uma turnê com catorze datas Brasil afora. Uma vez no palco, o segredo do sucesso fica evidente. Parafraseando o grande filósofo mutante Wolverine, pode-se dizer que eles são os melhores no que fazem, ainda que o que eles façam não seja lá muito bonito. Segundo definição dos próprios é “Desgraça 666 Carisma”. Ou, em outras palavras, é uma tosqueira dos diabos, como atestava a imensa roda de pogo que se formou na frente, em cima, dos lados e até no teto do bar.
Impressionante, mas nem de longe comparado ao pandemônio que foi o show do Mukeka di Rato. Desfalcados, sem o vocalista Sandro que se recupera de uma cirurgia no joelho, a banda se apresentou em formato power trio, com o baixista Mozine assumindo a maior parte dos vocais. Longe de comprometer o desempenho, a falta de um integrante se converteu em crueza e urgência na execução de pérolas do cancioneiro hardcore como “Acabar com Você”, “Praia da Bosta” e “Pasqualin na Terra do Xupa-Cabra”. O Mukeka é uma daquelas bandas que goza de total empatia com seu público, a ponto dos músicos deixarem o povo escolher o que queriam ouvir durante o show. Coisa para poucos, diga-se. A comoção e a entrega eram tamanhas que um cidadão pogava feliz, só de cuecas, em dado momento arriadas até os joelhos. Como diria Jane Spitfire, espião e mulher sensual, esse não pode ser um país sério…
Texto: Alexis Peixoto
Fotos: Débora Ramos e Rebeca Correia
Puta que pariu! Que texto é esse, galado?! Muito bom!!! hehehehehe
me greei demais com o cara, ainda de cueca, qnd eu vi
Coisa Lindjaaa hahahhaha
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