
Ainda está para chegar o dia em que as críticas aos discos produzidos em terras potiguares vai se limitar somente à música, sem se preocupar com bobagens supérfluas como qualidade técnica, picuinhas de carreira ou a postura alimentar dos integrantes. No caso de Still Normal, segundo EP do Calistoga em menos de um ano e último com a formação original, não dá pra fugir do primeiro item: as guitarras estão muito bem gravadas, mas a ressonância das cinco novas faixas seria bem maior com uma bateria melhor captada.
E pronto, que o assunto fique confinado ao primeiro parágrafo. O principal a ser observado na bolachinha, lançada em parceria entre os selos Xubba e Farol Discos é a inegável evolução do ex-quarteto. Embora ainda conserve os mesmos maneirismos e influências, é nítida a preocupação da banda em dar um passo adiante. Mesmo que não seja radicalmente diferente dos registros anteriores, Still Normal aposta mais em texturas e na subversão da estrutura das canções do que em riffs e refrões berrados – ainda presentes, mas em segundo plano.
Muito embora o sintetizador em “Silicon Mind (Madonna)” e “Blessed With a Curse” mais irrite do que surpreenda e os vocais de Dante ainda careçam de menos sotaque nas partes “cantadas”, o conjunto da obra aponta para um futuro promissor. Aqui finalmente começa a surgir a veia “experimental” tanto prometida e desejada pela banda. Nada de muito fora do comum, mas as inversões de tempo e até detalhes aparentemente inocentes, como a ausência de solos de guitarra na maiora das faixas (o primeiro do EP só vem dar as caras na penúltima faixa, “Insecure”, talvez a mais acessível do pacote), deixa entrever que o Calistoga não pretende ficar estagnado. Arrisco a dizer que ainda não é dessa vez que a banda vai romper a barreira indie a ponto de virar hype e ganhar tietes entre a crítica especializada, mas o caminho está pavimentado.
Vendo por esse lado, o diálogo sampleado de Onde Os Fracos Não Tem Vez no início de “Blessed With a Curse” não parece tão estranho ou sem propósito. Como Anton Chigurh pacientemente explica a um incauto, a questão é ter a coragem de apostar, não avaliar e pesar o que está em jogo. Se vai dar cara ou coroa, aí são outros quinhentos. A julgar pelo resultado final de Still Normal, a sorte favoreceu a banda. Resta saber se no próximo capítulo o Calistoga vai tentar o grande prêmio da Mega Sena com um álbum cheio ou se vai continuar com o espírito do homem comum, jogando na Loto Mania, pra ver se “tira uma mixariazinha pra comprar um carrinho velho…”
Olhe, bateria realmente sempre será um problema, pois neste Brasil varonil NUNCA vi gravação decente como qualquer banda de power-pop-fuleira-de-fundo-de-quintal-do-interior-dos-EUA consegue tirar. Só retiro a primeira demo do Mopho (AL), de 1998, se não me engano. Após 18 anos gravando, só tenho uma resposta: incompetência de quem toma conta do estúdio. Já quanto ao “inglês sotaqueado”, nunca vi nenhum crítico deste planeta reclamando do “accent” galês dos Super Furry Animals, do enfadonho inglês da duende islandesa chamada Bjork, ou do inglês-germânico troncho do Guy Chadwick, do House of Love. Já estou no doutorado dessa tal de língua e meu ex-professor texano fala tanto inglês correto quanto minha vó sertaneja. No mais, texto condigno sobre esta banda, que na minha opinião está mais preocupada em tocar seu som do que agradar alguém. E acho que eles são de uma geração que notou que o “álbum cheio”, para os independentes tupiniquins, tem tanto efeito quanto um EP… vai ser clonado do mesmo jeito. Além do mais, em qualquer festival só dá pra tocar 5 ou 6 canções mesmo. Eu acho que o pendamento deles já é “avant-guard”… não há problemas em ser uma banda de EP’s… no futuro pode rolar um “Greatest Riffs” do Calistoga.
Errata: “Eu acho que o pensamento deles já é ‘avant-guard’…”.
avantgarde! essa é a definição. embora ainda não tenha ouvido esse novo EP, o Calistoga tem potencial interessante…
“Deveria ser proibido debochar de quem se aventura em outro idioma” já disse Chico Buarque em Budapeste. Se a frase não era essa, não lembro ao certo, mas o sentido sim. Pior que o inglês da Bjork, era o do Einar Örn Benediktsson que cantava com ela no Sugarcubes. Citei a criatura quando ouvi uma crítica sobre uma banda nacional cantando em inglês e a resposta foi: “nunca reparei que o inglês dele era ruim”! Só me resta dizer 2 palavras – fuck off
Antes que me entendam mal, quando falei da bateria, quis me referir à CAPTAÇÃO/GRAVAÇÃO do som dela, que foi feita em outro estúdio diferente daquele da mixagem feita pelos calistogas Dante e Henrique, que não podem operar milagres tamborísticos(pelo menos, por enquanto!)…
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