
O gabinete O Inimigo de Utilidade Pública informa: Victor Toscano é um dos novos nomes a surgir da cena de Recife. Mas antes que aquela sombria sensação de déja vu se aproxime e o leitor corra para fechar a janela do site, vale salientar que Toscano é uma artista de Recife, mas não do Recife. Distante do pop de brechó e das calças pernilongo que predominam em alguns bairros da Manguetown recente, já lançou quatro álbuns onde senta Chico Buarque e Elliott Smith na mesma mesa, para bater um papo sobre a fedentina da cidade onde mora. No ano passado, ganhou destaque no site Senhor F, que disponibilizou o disco Mapa e a coletânea de singles Figura e Fundo para download gratuito. O disco mais recente é Sentindo Cidade, gravado no estúdio caseiro do próprio artista durante os primeiros meses de 2009.
Na entrevista a seguir, Victor Toscano fala com desenvoltura sobre a tal “moda” do folk indie (ao mesmo tempo em que rejeita o rótulo), admite de bom grado suas limitações como letrista e reacende a discussão sobre os filhotes de uma certa banda nova-iorquina que se reproduzem em velocidade assustadora pelas ruas de Recife.
Enquanto lê, baixe o álbum Sentindo Cidade aqui.
[O INIMIGO]:Há quem diga que o folk anda em moda, mas cada um tem uma definição diferente do que é folk. O que é folk para você? O termo define bem a sua música?
[VICTOR TOSCANO]: Uma banda como R.E.M por exemplo, desde o início dos 80, faz uma espécie de rock com influências folk e obviamente antes havia um sem número de bandas que o fazia. Quando a gente escuta uma música como “Quase sem querer” da Legião Urbana tá lá aquele som que muita gente toma como sendo folk. Coisa que tocou muito nas college radios dos anos 90 hoje é folk, o rock rural dos 70 hoje é folk, os Beatles faziam no começo de carreira o folk alternativo que o pessoal hoje em dia faz como se fosse novo ou revigorante. É quase como se nunca tivesse saído de moda ou entrado, apenas uma das várias vertentes para se classificar o que existe no universo do rock. O fato de tá “na moda” no Brasil, na minha opinião, tem origem simplesmente na questão de que ninguém conhecia direito e num momento de boom das bandas independentes e facilidade de divulgação virtual, isso ficou mais evidente. Hoje em dia praticamente não existe distinção, folk é o novo indie, da mesma forma que há algum tempo se jogava um monte de produtos no mesmo saco com etiquete de rock independente. Quando penso em folk penso em Simon & Garfunkel, eterno referencial meu e que me influenciou na forma de compor. Ou seja, penso na poesia musicada, no trovador, empunhando um violão. Se define bem minha música? Claro que não (risos).
Como você definiria a sua música, então?
Sou muito fã de jazz e bossa nova. Acho que sempre tem qualquer coisa de harmonia referente à bossa nova ou um jeito de cantar meio jazzístico, uma predileção pelo trabalho nas letras. A explicação é a mais clichê possível, apenas tento juntar de uma forma interessante as coisas de que gosto no intuito (talvez ingênuo) de criar algo novo. Se alguém que está lendo essa entrevista nunca escutou uma composição minha, então tá aí: o som é novo pra você!
Além do indie lo-fi americano dá pra sentir no seu disco uma influência forte de Chico Buarque, da MPB da década de 70. Há uma busca consciente por uma linguagem mais brasileira?
Há uma busca pela palavra. A composição é a parte mais agradável de todo o processo para mim. Eu escuto muito Chico Buarque e muita música brasileira. E tenho um prazer especial pela palavra bem dita. Procuro encontrar as que exprimem melhor o que quero dizer. Acho que a única coisa consciente é isso, a busca pela palavra e saber que tanto faz ficar com uma música empacada por três meses se no final daquele terceiro mês eu encontrar uma proparoxítona legal, que resolva um determinado verso que tava dando dor de cabeça. Se ficar ruim eu descarto sem problemas. Tenho um longo caminho ainda a percorrer como letrista.
A paisagem urbana aparece como o pano de fundo principal nas letras, diferente da maioria das bandas atuais que ouvimos de Recife, que preferem contornos mais abstratos. Seria uma retomada dos tempos do mangue beat, dos “rios, pontes e overdrives”?
Nesse disco sim, porque acho que o fiz pensando muito na cidade e como ela me afeta. Identifico-me com o conceito do manifesto manguebit, mas não inteiramente com sua estética. Então não é uma retomada. Em Sentindo Cidade é óbvio pensar em Recife quando canto de lixo no chão, “gasolina e animais”, “os bairros têm um cheiro engraçado”, “onde a vida é escassa e a morte me caça”. Esse pano de fundo se prestou bem para o conjunto de canções que eu queria no momento.
Os bairros de Recife realmente têm um cheiro engraçado (risos). Mas quando digo retomada, falo da vontade de cantar e escrever sobre a paisagem urbana que era comum no mangue e até em algumas bandas que vieram imediatamente depois, mas que no geral parece ser raro hoje em dia. Talvez a mudança no som possa ter tido algum efeito nas letras também.
Sim, acho que sim. Se você se refere à mudança de letra da turma de hoje, quem cresce ouvindo Coldplay ou Los Hermanos não vai escrever muita coisa sobre pontes e manguezais. Só que não acho que tenha que ser assim. Para mim, a princípio, uma coisa não devia ditar a outra. Aí nasce uma banda que ama os Los Hermanos e eles vão falar sobre uma flor, uma moça, uma dor. Acho detestável. O caminho contrário também não é necessariamente o certo. É quase como se as bandas não soubessem que têm o direito de escrever sobre o que quiserem. Anda faltando coisa real, antes mesmo de se entrar numa discussão sobre se o som escolhido influencia nas letras do artista. Influencia sim, a gente vê todo dia, mas precisa? O nascimento de uma nova estética é sempre muito bonito, a exaltação cega de uma nova estética até sua exaustão soa forçado, falso. Assim como uma banda que tem só o ginásio do inglês e decide que suas letras vão ser nesse idioma. Impossível levar a sério.
Ainda na história das letras, você considera o Sentindo Cidade um disco conceitual?
Sim, espero que seja (risos). É sobre Recife e é sobre queixa. Simples assim. Todas as canções falam sobre a cidade, com exceção de uma, que na minha cabeça serve de contraponto.
Como funcionam as canções no palco? Há alguma mudança nos arranjos?
Sempre há mudanças no arranjo porque todas as vezes que me apresentei foi só eu e o violão. Nos discos, gravo todas as faixas de voz, teclados, baixo, guitarras. A coisa fica mais minimalista do que já é. Atualmente tenho ensaiado com um amigo que me acompanha ao baixo e vocais. Achei necessário, pois há muitas harmonizações vocais nas canções, e gosto muito desse formato. A ausência de bateria já é característica forte de meus discos. Acho que a bateria pede toda uma outra disposição de espírito tanto para quem executa como para quem escuta.
Você acompanha a cena atual de Recife? Onde você se encaixaria nela?
Não saberia dizer o quão informado eu sou sobre a cena, acho que sei um bocado. Tem muita gente fazendo coisa massa, gosto da Profiterólis. Tem de tudo, ótimas bandas instrumentais, muita música regional. A coisa Strokes é bem fortinha por aqui. Bom, acho que nasce uma banda nova a cada 6 minutos aqui. E a taxa de mortalidade é igualmente alta. Creio que me encaixo junto com os artistas autorais solo, que procuram trazer seus mundinhos ao conhecimento do público.
O Jean Nicholas, numa entrevista que concedeu à O Inimigo, também apontou essa predominância dos “filhotes dos Strokes” aí em Recife. Segundo ele, isso acaba virando uma barreira para outros artistas que não seguem a mesma estética poderem tocar, integrar os festivais. Você já sentiu esse tipo de “preconceito” alguma vez?
Bom, é, acaba virando uma barreira a partir do momento que limita o imaginário do público. O pessoal começa a achar que uma banda para ser legal precisa ter guitarra, bateria, skinny jeans. Muitas vezes deixa-se de se apresentar porque nenhum estabelecimento quer uma apresentação acústica. Claro que não querem, não vai dar ninguém lá pra ver. Quem perde é sempre o público que deixa de conhecer as coisas. Quando se trata de música, as pessoas aqui são muito críticas, extremamente rígidas e algozes, parece que se está sempre disposto a levar abaixo uma carrada de artistas. O pessoal é bem crítico, o que não é necessariamente ruim, mas esquecem de fazer o dever de casa, ou seja, de conhecer música, de ampliar o catálogo, de ser mente aberta e, principalmente, de não ser atingido pessoalmente quando alguém gosta mais de outro tipo de som. Agora, esses são obstáculos comuns que podem ser encontrados em outras áreas de atuação profissional. Têm de ser transpostos. Eu acredito que a internet tenha potencial para isso. Sou adepto da opinião de que se deveria parar de assistir televisão, parar de ler best-sellers, de entrar em grandes sites e começar a procurar informação acurada em blogs e outros sites legais de música. Também relaxar um pouco, parar dessa coisa de querer saber mais do que o outro e gostar da coisa por si só, deveria ser o bastante.
A forma de gravar, em “estúdio caseiro”, é uma opção estética ou uma necessidade?
Olha, opção não é. Eu gosto de tudo que o estúdio pode me oferecer, gosto do som limpinho, do tratamento acústico, dos microfones condensadores que não posso comprar, da masterização com monitores de som. Então, não é opção. São muitas horas (caras) se você quiser gravar um disco de umas dez músicas num estúdio ótimo ou bom. Mas a partir do momento que planejo um disco para gravar no meu quarto, a liberdade ganha é imensa. O clima muda, acho que a “estética do quarto” privilegia a poesia, faz soar cru mesmo depois de toda reverberação do pós-produção. Fica mais próximo de quem escuta, é o que tenho escutado. Depois que gravo, no entanto, o que ressalta para mim são imperfeições que eu preferia que não estivessem ali. Gravando no quarto, mesmo que eu adquira sempre melhores equipamentos, sempre haverá algo de intransponível no som que é gravado. A não ser que eu aperfeiçoe meu estúdio caseiro ao ponto de transformá-lo num excelente estúdio dentro de casa. Quando é que uma gravação deixa de ser lo-fi?
Bem, o que confere autenticidade a uma gravação?
É a mesma coisa para um bom livro ou filme. Acho que a obra passa a ser relevante quando o autor fez com honestidade, e passa a ser notável quando ele conseguiu codificar bem sua honestidade no meio que escolheu. Seja em estúdio caseiro ou não.
Como é que um disco de folk/bossa gravado em “estúdio caseiro” saiu do Recife e foi bater no Senhor F?
Enviei o disco Tentativa e Erro para o “mande seu material” do site Senhor F. Acabou que o Fernando Rosa [editor do site] gostou bastante e entrou em contato. Na época eu tava terminando de gravar o disco seguinte, chamado Mapa, aí foi lançado lá no site em forma de single, com duas canções. Em seguida foi editada uma coletânea, que ganhou o nome de Figura e Fundo e lançada. Quem quiser, pode baixar esses dois lá e a discografia completa pelo site da TramaVirtual.
[...] Leia entrevista com Victor Toscano aqui. [...]
Parabéns Victor. Estou gostando de ver como tais ficando mais notável cada vez mais. Desde do álbum Distraction (foi aí que comecei a escutar mais de perto tuas produções e, sempre que dá eu dou uma olhadinha nas tuas coisas novas), em 2007, até hoje eu estou curtindo o som.
Gostei muito da entrevista também (tá de parabéns o blog). Assim dá pra conhecer mais um pouco sobre o artista e dar o valor merecido à ele.
Bom, parabéns e sucesso, estarei acompanhando.
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