
Numa das últimas cenas de Lóki Sérgio Dias, confortavelmente esparramado numa poltrona e metido num impecável terno branco, sintetiza em poucas e contundentes palavras a imagem comumente atribuída ao irmão: “Ele estava vinte anos à frente. Agora, só porque os cretinos não entendiam o que ele falava, eu inclusive, quem somos nós pra julgar? Quem é louco, a gente ou o Van Gogh?” questiona coberto de razão.
Os cretinos, claro, sempre dão um jeito de aparecer. E aí vem toda aquela discussão chata sobre arte e loucura, que a bem da verdade, não leva a lugar nenhum. Depois da sessão do documentário sobre Arnaldo Baptista, os cretinos certamente sairão da mesma maneira que entraram, cultuando a imagem do doidão, do louco, do sujeito perturbado que pôs tudo a perder por uma viagem de LSD. Poucos “deles” vão notar o que o filme de Paulo Henrique Fontenelle realmente pretende: descobrir ou, pelo menos, proporcionar um vislumbre sólido do artista criador encoberto pela personalidade de gênio louco.
A maior dificuldade certamente deve ter sido separar esses dois lados. Histórias sobre acessos de loucura de Arnaldo estão aí aos borbotões, enquanto pouco se fala sobre o comportamento perfeccionista do multi-instrumentista obcecado por amplificadores valvulados, o band-leader que puxava jam-sessions siderais no palco, o pianista alucinado e personal à frente da Patrulha do Espaço, o compositor intuitivo de Lóki e Singin’ Alone. A solução encontrada por Fontenelle foi simples e acertada. Ao invés de desmitificar, corrobora-se o mito e, de quebra, o consumidor leva um gênio criador de primeira grandeza no mesmo pacote. Afinal, os dois Arnaldos existem e são muitos reais: trata-se, sem dúvida, de um artista ímpar na história da música brasileira (e além), mas ignorar ou negar a influência que seu estado mental teve sobre sua obra é estupidez, para dizer o mínimo. O Arnaldo “maluco” é o alicerce do artista e vice-versa.
Mas, atenção, não há exploração gratuita da fragilidade aqui. Pelo contrário: Lóki é um tour de force compatível com um universo paralelo onde confusão mental e emocional se mistura à criação (olha esse papo aí de novo). Um dos (poucos, diga-se) problemas do filme é justamente a falta de fôlego para suportar a viagem. Por falta de tempo, muito pouco ou quase nada é dito sobre a feitura dos discos dos Mutantes ou da carreira posterior de Arnaldo e alguns personagens chave são passados em vista apenas de raspão, sem identificação clara. Luiz Calanca, por exemplo, dono da loja e selo Baratos Afins, que lançou dois discos solos de Arnaldo (Singin’ Alone e o “terapêutico” Disco Voador) é identificado apenas como “produtor musical”.
Embora tecnicamente desleixado, o filme faz da crueza uma forma de aproximar os depoimentos de gente como Rogério Duprat, Gilberto Gil, Liminha, Rafael Villardi (guitarrista original do O’Seis, embrião dos Mutantes) Sean Lennon, Kurt Cobain, Antônio Peticov (artista plástico, o homem que assumidamente apresentou o ácido aos Mutantes), entre outros. A isso some-se um porrilhão de fotos, imagens raras e uma trilha sonora impecável e aí está um retrato sincero, pungente e visceral de um capítulo vivo da música brasileira, tão contundente que por si só já daria um romance dos mais complexos.
A única ausente na festa, como era de se esperar, é Ms. Rita Lee. Mesmo resistindo a tentação de demonizá-la, o filme não absolve nem acusa ninguém. Ainda que o próprio Arnaldo se refira a ela sem sombra de rancor e até admita, com um carinho saudosista na voz, que na época não soube lidar bem com a separação, pois “não tinha muita experiência com seres femininos”, há uma área escura em volta do que realmente aconteceu entre os dois e, por conseguinte, com a banda. Mas isso é assunto para outro filme, outro texto, outras histórias. O consenso geral entre os entrevistados é de que sim, Arnaldo era o cérebro, o coração, o pulmão dos Mutantes. E que assim que as drogas entraram na jogada, houve falência múltipla dos órgãos.
O final da saga, com os shows da reunião no Barbican e no aniversário de São Paulo, em 2006, acaba saindo desatualizado. De Zélia Duncan à Sergio Dias, todos esperavam que a reunião fosse “o combustível para o Arnaldo continuar”. Isso, como todo mundo hoje sabe, não aconteceu. O mutante maior foi o primeiro a pular fora e de volta a tranquilidade de seu sítio em Juiz de Fora vive muito bem, numa boa, numa tranquila, enquanto o irmão prossegue junto ao baterista Dinho com o duvidoso projeto de um disco de inéditas (previsto para setembro pelo selo -ANTI, casa atual de Tom Waits, Nick Cave e Antibalas, entre outros). Arnaldo continua, à sua maneira, vivendo o personagem da “Balada do Louco”, recluso e sob os cuidados da esposa. E, certamente, curtindo isso pacas.
Trailer: Lóki – Arnaldo Baptista
fudjido… faça a preza ae e bote o doc na roda…
abraço
Muito bom esse filme. O Cara é gênio. Mas, também não deixa de ser loki. O Bicho tá infantil demais.
E Os Mutantes de Sérgio Dias, a quantas anda? Lançaram uma música ano passado e mais nada.
Ramon, os Mutantes assinaram agora em junho com a -ANTI Records, que é um selo bacana lá dos EUA (é só olhar o catálogo dos caras), e devem soltar o tal disco em setembro. Ao que parece, o disco tá pronto e já tem até título: “Haih”. No site do selo tem umas informações, mas nada de tracklist ou arte da capa, ao menos por enquanto. É aguardar pra ver.
Dê uma sacada lá: http://www.anti.com/catalog/view/135/Haih
abs,
[...] Aproveitando, deixo o link do artigo que escrevi publicado no site O Inimigo: http://www.oinimigo.com/blog/?p=2027 [...]
Parabéns pelo texto Alexis, pena que eu não consegui ver o filme no cinem.
Acho que a genialidade do Arnaldo está em dominar completamente as possibilidades do pensamento. Ele ultrapassa a fronteira comum daquilo que nosso entendimento mediano considera música. Ouvi-lo não é só um prazer para quem tem coragem de enfrentar o inusitado, é exercitar a nossa capacidade de suportar nossa própria linguagem.
keep on the beat!
Sobre o documentário, digo que foi dada muita voz a outras pessoas e pouca voz a Arnaldo.
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