
Diego Medina é uma figura tão enigmática quanto compulsiva. Espécie de Mike Patton gaúcho, rachou o assoalho dos pampas nos anos 90 quando gravou meio de brincadeira a demo Nunca Mais Vai Passar o Que eu Quero Ver, assinada pelo pseudônimo Doiseu Mimdoisema (uma equação baseada nas silabadas do próprio nome: tentem decifrar). De lá para cá, o Doiseu cresceu e encolheu de volta e Medina montou outros projetos como o inclassificável Os Massa e a abreviada e bacana Vídeo Hits, que chegou até a ter disco lançado pela Abril Music antes de encerrar atividades de forma abrupta. Medina foi então cuidar da vida, sem abandonar a música (e seu talento para letras sobre gastronomia e estados alterados da mente), mas priorizando a carreira de ilustrador ( e de mão cheia, diga-se. Já fez desenhos para entidades tão díspares quanto Sérgio Dias, a revista da MTV e o canal da Fox) e eventuais aparições publicitárias (ele é o sujeito que grita “Chocolaaaaate!” no comercial do Twix).
Dia desses, teve uma idéia tão auto-referente quanto genial: criou um selo virtual, o Suma! Discos, só para disponibilizar de graça todo seu catálogo. Depois de soltar dois discos duplos (!) com Os Massa em menos de um ano e escrever uma ópera-zumbi (!!), a criatura abre 2009 com OYO, EP que assina com o próprio nome na capa. São cinco faixas malucas e um tanto confusas, de letras indecifráveis e títulos pouco ortodoxos (a mais normal leva a alcunha de “Watermelon Honey Dreams”), mas que batem direto nas terminações nervosas de quem ouve. Por falta de definição melhor, eis aqui uma genuína e preciosa esquisitice pop.
Como bom fã de Ween e Zappa que deve ser, Medina não se preocupa em se ater a um só gênero musical. O disquinho abre com “OYO” e “Watermelon Honey Dreams”, duas canções pop entortadas até torar, cantadas em falsete num inglês incompreensível. Na sequência vem “GAR” uma balada psicodélica à Super Furry Animals, que abre caminho para “Bread Fed”, uma cacetada trash metal. É, trash metal. E dos bons, daqueles com cinto de bala, jeans surrado e jaqueta de couro. Faça uma cabra-cega com o seu primo metaleiro e mostre essa faixa dizendo que é uma gravação perdida do Kreator que você achou na internet. Se ele cair, é porque ainda há esperança para o mundo.
Mas quando você acha que a piada foi longe demais, “Made of Secrets” abre com uma batidinha sincopada na beira da caixa (vulgo samba de branquelo) e um violãozinho matreiro costurando para fechar o disco. Mas aí a brincadeira para e entra a voz, conservando a truculência da faixa anterior: “Can you hear thunders?/ I tought you could/Mayhem is calling/Flaming our youth”. E aí, volta o sambinha pilantra para o refrão, num falsete mais pilantra ainda.
E por essas horas, você lamenta que OYO seja só um EP, de apenas cinco faixas. E aí bate a plena certeza de que o país precisa urgentemente de um disco cheio de Medina. E daí para a dominação mundial é um pulo. Porra, quero vê-lo tocar no Faustão, no Raul Gil, na Hebe, no João Inácio Show. Até no João Gordo serve. Até lá, vamos baixando os discos, ouvindo e se esbaldando que a vida é curta e a grana mais ainda.
Semiótica né essa imagem. Massa.
o cara é talentoso mesmo.
Não conhecia esse cara, mas ele é bom mesmo.
Matéria mais que merecido ao meu chará
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