Foi só terminar a primeira audição desse grande disco que é o Break It Yourself , novíssima cria do multifacetado (uh!) Andrew Bird, para ver, daqui do alto dos dez andares de meu modesto apartamento, aqueles velhos detratores se agitando em seus covis para fazer a fácil utilização de adjetivos como autoindulgente, exagerado, entediante, entre outros.
Esse novo trabalho de Andrew Bird requer rendição completa. Algo parecido com aquela sensação letárgica que nos acompanha quando olhamos pela janela de um ônibus enquanto fazemos uma longa viagem. Bird constrói nesse disco espaços abertos, enormes e, muitas vezes, cinzentos, que exigem do ouvinte atenção quase religiosa. E não uso esse adjetivo à toa, uma vez que algumas faixas parecem evocar algo assim.
E digo mais, se esse disco não possui canções tão notáveis quanto em The Misterious Production of Eggs e Noble Beast (que a casa gosta muito mesmo), isso se deve em boa parte pela evidente intenção de se criar um álbum que avança sereno como uma oração. Considerando isso, qual não é a surpresa quando nos deparamos com faixas brilhantes e coloridas, como “Near Death Experience Experience”, “Fatal Shore” e “Lusitania”, no meio dessa paisagem agreste e impassível criada por Bird?
Com 14 faixas e 60 minutos, certamente sobrarão queixas relacionadas à extensão do disco e às pretensões de Break It Yourself. No entanto, a cada audição fica mais claro que, assim como em um filme de Malick, não há um único “take” sequer a se subtrair. O que temos aqui é uma obra longa e contemplativa, repleta de idas e vindas a lugar nenhum (o que, nesse caso, não é demérito), que se recusa a ser ouvida entre uma checada no Twitter e uma mordida no sanduíche de mortadela.
*Publicado no blog Eu, Pteranodonte
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