“Ruas largas, sem calçadas e que parecem desenhadas em pranchetas no andar mais alto do Palácio do Buriti. Essa cidade não foi feita para pessoas e sim para pessoas dentro de carros, pessoas dentro de prédios: pessoas dentro da máquina de produção-consumo. Feita na prancheta, imaginada e não vivida, Brasília é uma cidade construída em amor ao poder”.
A definição de Brasília acima, presente na página do Bandcamp da Cidade Cemitério, é a definição de muitas cidades, geralmente das planejadas. Planejadas para quem tem dinheiro. Por isso o disco termina com a declaração de um operário que a cidade não é para ele.
A Cidade Cemitério tem menos de um ano de existência. Estão em sua formação Poney (Violator, Ameaça Cigana, Possuído Pelo Cão, Scumbag) na guitarra, Manga (Gracias Por Nada, Vingança) no vocal, July no baixo e Daniel na bateria. O som é pra quem gosta de punk sem frescura. Punk oitentista. Rápido, com riffs poderosos e linhas de baixo e bateria simples e seguras. O vocal estridente, gritado, dá vazão as letras de cunho social que mostram as mazelas do dia a dia. Não tem nenhuma invenção e nem intenção em inovar. E isso é o bom. Apenas uma música ultrapassa os dois minutos. Os recados são curtos e crus.
O disco é permeado por uma gravação entre algumas músicas, o que pontua a obra. Mostra como Brasília foi construída para ser o modelo. A capital federal. O problema é que a capital tem ilustres moradores relâmpagos. Os políticos que comandam a nação e estão no meio da capital, no centro das atenções literalmente. Dessa forma a vida deles é uma maravilha, já que a cidade foi feita para eles. Mas as letras, as músicas, não se referem a eles. Se referem a quem vive a margem da integração. Ao entorno da cidade modelo. Discriminação, violência, angústia, prepotência, acomodação, religiosidade. De toda forma, se tudo isso está presente nos excluídos, está também nos incluídos. Não há como dissociar um do outro. “De vítima a algoz” é o exemplo de como devemos nos portar por causa do próximo, para não sofrer retaliação por estar ou ser diferente. O resto do disco segue o mesmo tom sombrio, do caos total. Sugerem luta, resistência, mas aos mesmo tempo mostra que tudo está perdido.
O disco entitulado Asa Morte, com fotos da construção de Brasília no seu encarte e até pelo nome da banda, pode ser considerado uma álbum conceito sobre a cidade. Mas a realidade de lá não é diferente de tantas outras cidades no Brasil e no mundo, já que os excluidos ficar a margem da sociedade, criam e vivem suas próprias regras, vez ou outra infringindo a lei vigente dos que tem dinheiro. Talvez por Brasília possuir moradores tão ilustres que geralmente gozam de imunidade perante crimes que cansamos de ver na tv, ouvir no rádio ou ler em revistas, jornais e na internet, ganhe uma dimensão maior e crie essa cara de conceitual. Mas a verdade é que a realidade é a mesma em qualquer grande cidade. É como toda família que tem bandido, drogado, homossexual, doido… Quem quiser fechar os olhos é fácil.
Encerrando, uma gravação mostra um repórter perguntando a um operário se ele está satisfeito com Brasília, se pretende continuar morando lá. “Não senhor, Brasília não dá pro operário”. E assim os excluídos construiram as cidades periféricas e continuam alimentando o noticiário.
Foto: Nicolas Gomes
Moro em POA desde o ano passado, mas nasci em BSB em 1970 e vivi bem esse discurso da CIDADE CEMITÉRIO.
O melhor HC do Brasil se faz em lá com Os Cabeloduros, Makakongs, DFC e a melhor banda desse estilo do Brasil: Galinha Preta.
Vou baixar o disco e ouvir se esses rapazes barulhentos, honram suas calças brazilienses.
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